Blog do Amorim: William Wilberforce: fé, política e a luta pela dignidade humana

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7 de setembro de 2026

William Wilberforce: fé, política e a luta pela dignidade humana

Por: Alcides Amorim

“No século XVIII, a Inglaterra detinha o o monopólio do comércio de escravos negros. Os meios de transporte eram os mais cruéis imagináveis. Boa parte da população inglesa tirava proveito desse comércio, e o povo, de maneira geral, aceitava a escravidão... Mas Deus graciosamente ergueu uma geração de políticos cristãos para lutar contra o que William Carey chamou de ‘maldito comércio de escravos’...” [1]

William Wilberforce (1759-1833) [2]

Ao escrever o artigo Cidadãos do Céu, Eleitores na Terra: a política sob a cosmovisão cristã, uma das questões que procurei considerar foi a responsabilidade do cristão diante da vida pública. Afinal, se a fé cristã alcança todas as dimensões da existência humana, seria difícil sustentar que a política devesse constituir uma espécie de território neutro, onde as convicções cristãs precisassem ser deixadas do lado de fora. Mas como isso pode acontecer concretamente? Como um cristão pode participar da vida política sem transformar sua fé em instrumento de disputa partidária e, ao mesmo tempo, sem abrir mão dos princípios que sua consciência cristã lhe impõe?

Foi durante uma breve pesquisa relacionada àquele artigo que me deparei com a figura de William Wilberforce, parlamentar inglês do século XVIII. Confesso que, até então, sua história me era pouco conhecida. E entendi, então, que sua trajetória merecia um artigo próprio. Sua conversão ao cristianismo evangélico, sua permanência na vida política, sua luta persistente contra o tráfico de escravizados e sua compreensão da fé como fundamento para a vida pública constituem um interessante exemplo histórico de como a convicção cristã pode ultrapassar os limites da experiência individual e produzir consequências na sociedade. Não se trata, evidentemente, de transportar para o Brasil do século XXI as circunstâncias da Inglaterra de dois séculos atrás, mas de perguntar o que sua história pode nos ensinar sobre fé, vocação, política e responsabilidade cristã.

William Wilberforce viveu numa Inglaterra marcada por profundas contradições. De um lado, o século XVIII testemunhava o crescimento econômico, a expansão comercial e marítima do Império Britânico, o desenvolvimento das cidades e o fortalecimento da influência britânica no mundo. De outro, essa prosperidade estava ligada, em parte, a um sistema colonial que incluía o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a exploração econômica das colônias. Açúcar, tabaco e outros produtos provenientes das possessões britânicas chegavam à metrópole alimentando hábitos de consumo e interesses comerciais, enquanto milhares de homens, mulheres   crianças eram arrancados de sua terra, transportados em condições desumanas e reduzidos à condição de mercadoria.

Era também uma época de grandes transformações intelectuais e políticas. O pensamento iluminista colocava em discussão antigas concepções de autoridade, sociedade e liberdade. Ao mesmo tempo, movimentos de renovação religiosa alcançavam setores da Igreja da Inglaterra. O chamado evangelicalismo inglês insistia na necessidade de uma fé pessoal, na centralidade das Escrituras, na conversão e numa vida cristã que produzisse frutos concretos na sociedade. Foi nesse ambiente contraditório que Wilberforce cresceu e iniciou sua carreira pública.

Nascido em Hull, em 1759, pertencente a uma família abastada, filho único de Robert e Elizabeth Wilberforce, William recebeu boa educação e ingressou na Universidade de Cambridge. Ali estabeleceu amizade com William Pitt, que posteriormente se tornaria primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Jovem, inteligente, eloquente e dotado de grande habilidade política, Wilberforce foi eleito para o Parlamento em 1780, aos 21 anos. A política parecia ser seu caminho natural. Entretanto, naquele momento, sua vida religiosa (cristã) ainda estava longe de possuir a profundidade que posteriormente a caracterizaria.

A mudança decisiva ocorreu alguns anos depois. Entre 1784 e 1785, Wilberforce passou por uma profunda experiência de conversão. Ele já era formalmente membro da Igreja da Inglaterra, mas sua fé havia sido, até então, em grande medida uma questão nominal e social. O encontro com o cristianismo evangélico, a leitura das Escrituras e, particularmente, sua proximidade com John Newton – antigo capitão de navio negreiro que havia se tornado pastor anglicano e autor do conhecido hino Amazing Grace – contribuíram para transformar radicalmente sua compreensão da fé cristã. Além da proximidade com o autor do hino Amazing Grace, Wilberforce, segundo FERREIRA (pág. 310), teve proximidade com Philip Doddridge, que escreveu o conhecido hino “Oh Happy Day” [3].   

Wilberforce passou a enxergar sua própria vida à luz da eternidade. Sua conversão trouxe-lhe inclusive uma crise de consciência em relação à carreira política. Por algum tempo, chegou a considerar a possibilidade de abandonar o Parlamento, imaginando que a vida política fosse incompatível com uma existência verdadeiramente cristã. Foi nesse período que John Newton teve importante participação ao encorajá-lo a permanecer onde estava. Em vez de abandonar sua vocação pública, Wilberforce deveria procurar exercê-la sob o senhorio de Cristo.

Essa compreensão seria decisiva para o restante de sua vida. Wilberforce não deixou a política para viver sua fé; levou sua fé para dentro da política. A conversão não o transformou num político menos interessado nos assuntos públicos, mas num político que passou a enxergar esses assuntos sob uma nova perspectiva moral e espiritual.

Foi nesse contexto que a questão da escravidão começou a ocupar lugar central em sua atuação. O tráfico de africanos escravizados era uma atividade profundamente enraizada nos interesses econômicos britânicos. Combatê-lo significava enfrentar comerciantes, proprietários, interesses coloniais e setores influentes da própria sociedade. Não se tratava, portanto, de uma causa simples, capaz de ser resolvida por uma votação isolada.

Wilberforce encontrou aliados importantes. Thomas Clarkson dedicou-se à investigação e à divulgação das atrocidades do tráfico; John Newton utilizou sua própria experiência para testemunhar contra o sistema que anteriormente ajudara a sustentar; Hannah More empregou sua produção literária e sua influência social; e outros cristãos evangélicos formaram uma rede de mobilização que alcançava igrejas, escritores, parlamentares e a população em geral.

Wilberforce tornou-se a principal voz parlamentar dessa campanha. Em 1789, apresentou ao Parlamento um dos seus primeiros grandes discursos contra o tráfico, procurando demonstrar que aquela prática era moralmente indefensável. A reação, entretanto, foi muito mais difícil do que talvez se pudesse imaginar. Vieram adiamentos, derrotas, resistências e argumentos econômicos. A causa abolicionista precisou enfrentar não apenas adversários políticos, mas também uma cultura que havia se acostumado a considerar normal aquilo que, à luz dos princípios cristãos e da própria ideia de dignidade humana, era profundamente injusto.

Durante anos, Wilberforce insistiu. Derrota após derrota, continuou retornando ao Parlamento. Sua trajetória demonstra que grandes mudanças sociais raramente acontecem de maneira instantânea. Algumas exigem convicção, organização, argumentação, mobilização e, sobretudo, perseverança.

Finalmente, em 1807, depois de aproximadamente duas décadas de luta, o Parlamento britânico aprovou a legislação que aboliu o tráfico de escravos no Império Britânico. É importante fazer aqui uma distinção histórica: a lei de 1807 não significou a imediata emancipação de todos os escravizados nas colônias britânicas. A escravidão propriamente dita seria abolida posteriormente, em 1833, pouco antes da morte de Wilberforce.

A vitória de 1807, contudo, não foi apenas resultado da atuação de um parlamentar. Ela foi fruto de um movimento que havia procurado modificar também a consciência da sociedade. A luta contra o tráfico esteve ligada a uma visão mais ampla de reforma moral e social. Wilberforce e seus companheiros compreendiam que uma sociedade não poderia ser verdadeiramente civilizada enquanto aceitasse a transformação de seres humanos em mercadoria.

Essa dimensão mais ampla de sua atuação é particularmente importante. Wilberforce não se limitou à questão da escravidão. Participou de iniciativas relacionadas à educação, à reforma das condições sociais e à promoção dos valores cristãos. O movimento evangélico ao qual estava ligado procurou atuar em diferentes áreas da sociedade. A fé, para Wilberforce, não deveria permanecer confinada às paredes do templo. Ela deveria alcançar a vida pessoal, a cultura, os costumes e as instituições.

Nesse sentido, sua história oferece uma reflexão especialmente relevante para o conservadorismo cristão de nossos dias. Wilberforce demonstra que a participação política do cristão não precisa significar a transformação da fé em ideologia partidária. Tampouco exige que o cristão abandone suas convicções religiosas para ser considerado um cidadão responsável. Ao contrário: sua atuação pública foi profundamente influenciada por sua compreensão cristã do ser humano, da moralidade e da responsabilidade diante de Deus.

Há aqui uma lição que merece ser considerada. O conservadorismo cristão não pode ser reduzido à defesa de determinadas pautas políticas, à preservação de interesses econômicos ou à identificação com um partido. Se pretende conservar aquilo que merece ser conservado, precisa também perguntar pelos fundamentos morais que tornam possível uma sociedade justa.

Wilberforce viveu numa sociedade que possuía instituições, leis, tradições e uma economia vigorosa, mas que tolerava uma grave injustiça. Sua postura mostra que conservar nem sempre significa simplesmente manter o estado de coisas existente. Há momentos em que a fidelidade aos princípios exige reforma. E há situações em que a defesa da dignidade humana exige enfrentar interesses poderosos, mesmo quando esses interesses estão profundamente incorporados à estrutura social.

Isso não significa transformar Wilberforce em um personagem político brasileiro do século XXI. Os contextos são diferentes, os problemas são diferentes e as circunstâncias históricas não podem ser simplesmente transportadas de uma época para outra. A lição está nos princípios.

O cristão que participa da vida pública precisa cultivar convicções, mas também prudência; precisa defender valores, mas sem transformar o adversário político em inimigo absoluto; precisa compreender que a política é importante, mas não é o Reino de Deus; precisa reconhecer a autoridade das instituições, mas também lembrar que nenhuma autoridade humana está acima da verdade e da justiça.

Wilberforce também ensina a importância da perseverança. Foram necessários muitos anos para que uma causa que parecia quase impossível alcançasse uma vitória concreta. Num tempo em que a política frequentemente é marcada pela ansiedade, pela polarização e pela expectativa de resultados imediatos, sua trajetória recorda que algumas batalhas precisam ser travadas durante anos antes que seus frutos possam ser percebidos.

Talvez esteja aí uma das maiores contribuições de sua história para o conservadorismo cristão brasileiro: a política não deve ser o lugar onde o cristão abandona sua consciência; deve ser um dos lugares onde sua consciência cristã é exercida com responsabilidade.

Wilberforce não foi perfeito, nem sua época pode ser idealizada. Mas sua vida demonstra que a fé cristã pode produzir consequências concretas na esfera pública quando está associada à convicção, à coragem e à perseverança. Ele compreendeu que possuir poder político não era um fim em si mesmo. A política era uma vocação — e uma vocação deveria ser exercida diante de Deus.

Por isso, sua história permanece atual. Não porque devamos procurar no século XVIII respostas prontas para os problemas do Brasil de hoje, mas porque a pergunta fundamental continua sendo a mesma: o que significa viver a fé cristã quando se tem responsabilidade diante da sociedade?

A resposta de Wilberforce foi dada não apenas em palavras, mas em décadas de trabalho, derrotas e perseverança. Ele entrou no Parlamento como jovem político. Saiu dele tendo ajudado a mudar a história de seu país.

E talvez essa seja a grande lição: a fé genuína não retira necessariamente o cristão da praça pública; ela pode levá-lo a entrar nela com uma consciência renovada, sabendo que, acima dos interesses políticos, existem princípios pelos quais vale a pena lutar.

Veja também:

Notas:

  • [1] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da Igreja. São José dos Campos/SP: Fiel, 2014, pág.309. Outras fontes acerca de Wilberforce, foram filtradas, via I. A. CHATGPT: históricas institucionais do Parlamento Britânico, e acadêmicas e biográficas, extraídas da Oxford Academic... Acesso em: 03/09/2026.

  • [2] WILBERFORCE, William. Pintura à Óleo, de John Rising, 1790. National Portrait Gallery.
  • [3] Philip Doddridge (1702–1751) foi pastor e escritor inglês, além de autor de numerosos hinos. Entre eles está “O Happy Day, That Fixed My Choice”, posteriormente conhecido, em versões adaptadas, como “Oh Happy Day”. Sua obra The Rise and Progress of Religion in the Soul, publicada originalmente em 1745, exerceu grande influência na espiritualidade evangélica inglesa e foi lida por William Wilberforce juntamente com seu amigo Isaac Milner.

Um comentário:

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