“Dois amores
fundaram duas cidades” (Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus).
“Buscai a paz da cidade
para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis
paz”
(Jr
29.7).
A obra A Cidade de Deus, escrita por
Agostinho de Hipona no século V, permanece como uma das mais profundas
reflexões cristãs sobre a relação entre fé, sociedade e poder. Sua distinção
entre a Cidade de Deus (Civitas Dei) e a cidade terrena (Civitas
Terrena) oferece uma chave importante para compreender não apenas a
história, mas também a presença e a responsabilidade do cristão na vida
pública.
Essas duas cidades não correspondem
simplesmente a territórios, governos ou instituições. Elas representam, antes,
duas orientações fundamentais do coração humano: dois amores, dois conjuntos de
valores e duas maneiras de compreender a existência. De um lado, o amor a Deus,
que conduz à justiça e ao serviço; de outro, o amor-próprio desordenado, que
pode transformar a busca por reconhecimento, poder e glória em finalidade da
própria vida.
É justamente nesse contraste que a reflexão de
Agostinho continua atual. A questão não é simplesmente saber quem governa, qual
partido vence ou qual modelo político prevalece. A questão mais profunda é: que
tipo de amor orienta aqueles que exercem o poder e aqueles que participam da
vida pública?
Na verdade, a obra A Cidade de Deus, de Agostinho,
permanece como uma das lentes mais profundas para compreender a relação entre a
fé cristã, a sociedade e a ação política. No centro do tratado agostiniano
encontra-se a distinção entre duas comunidades espirituais e morais. Elas não
são definidas por fronteiras geográficas, políticas ou institucionais, mas pelo
objeto de seu amor. A Cidade de Deus é formada por aqueles que vivem pelo amor
a Deus, até o desprezo de si mesmos, orientados pela justiça divina e pelo
verdadeiro bem. A cidade terrena, por sua vez, caracteriza-se pelo amor-próprio
levado até o desprezo de Deus, manifestando-se na busca desordenada por glória,
poder e exaltação pessoal.
Para Agostinho, a verdadeira grandeza do homem
não está no poder, na glória ou no reconhecimento público, mas na justiça que
orienta sua vida. Quem busca viver retamente não faz da aprovação humana o
objetivo de sua existência. O reconhecimento pode até acontecer como
consequência de uma boa conduta, mas não deve se tornar a razão de agir. O que
importa, em última análise, não é ser admirado pelo poder que se exerce, mas
ser reconhecido pela justiça que se pratica.
Na história presente, essas duas cidades
caminham entrelaçadas. Não constituem dois territórios politicamente separados,
nem podem ser identificadas simplesmente com instituições humanas. Sua
distinção é, antes de tudo, espiritual e moral: uma se orienta pelo amor a
Deus; a outra, pelo amor desordenado de si mesma. É justamente nesse cenário de
convivência histórica que se deve compreender a Igreja.
A Igreja não deve ser confundida com a
totalidade do Reino de Deus em sua consumação escatológica. Ela é a comunidade
peregrina daqueles que pertencem a Cristo e aguardam a plena manifestação de
seu Reino. Inserida no mundo, mas não reduzida aos seus valores, a Igreja
testemunha, pela fé, pela Palavra e pela prática cristã, uma ordem de valores
que não nasce dos consensos culturais, mas do senhorio de Cristo.
Ao mesmo tempo, a Igrejavisível
permanece uma comunidade histórica e, portanto, imperfeita. A própria parábola
do trigo e do joio recorda que a separação definitiva não pertence aos homens,
mas ao juízo de Deus: “Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por
ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em
molhos para o queimar; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro” (Mt 13.30).
Essa perspectiva é fundamental para compreender
também os limites da ação política. O Estado pertence à ordem temporal
da vida humana. Em razão da condição caída do homem, instituições, leis e
autoridades civis tornam-se necessárias para conter a violência, preservar a
ordem e promover uma medida possível de justiça e paz. Agostinho não considera
o Estado um instrumento de salvação nem acredita que qualquer estrutura
política possa produzir, por si mesma, a perfeição moral da sociedade. Seu
papel é temporal e limitado.
A chamada “paz terrena” possui, portanto, valor
real, mas não deve ser confundida com a paz definitiva do Reino de Deus.
Governos passam, sistemas políticos se transformam e impérios desaparecem. A
história de Roma, conhecida tão de perto por Agostinho, tornou-se uma
demonstração concreta da fragilidade das realizações humanas. Nenhuma ordem
política é eterna.
Conforme observa Bengt Hägglund[1], a tensão entre essas duas
cidades não se resolve historicamente pela substituição imediata de uma pela
outra, mas permanece até a consumação final. A distinção agostiniana, portanto,
permite compreender a história humana como o espaço em que diferentes amores,
valores e finalidades coexistem e se confrontam. A cultura, a sociedade e a
política tornam-se, assim, campos nos quais se manifestam tanto os efeitos da
queda quanto os sinais da graça comum de Deus.
Essa compreensão possui importantes implicações
éticas. Quando tratamos da cultura e da ética no contexto dos reinos dos
homens, ligados ao Primeiro Adão, e do Reino de Deus, ligado ao Segundo Adão[2], torna-se necessário
reconhecer que nenhum sistema político pode reivindicar para si a plenitude do
Reino de Cristo.
O cristão participa da vida social e política,
mas não deposita nela sua esperança última. Ele respeita as autoridades, cumpre
seus deveres civis, participa legitimamente da vida pública e procura promover
o bem de sua comunidade. Entretanto, sua cidadania terrena está subordinada à
sua cidadania celestial.
Essa verdade é especialmente importante diante
da tentação de transformar a política em objeto de fé. Nenhum partido,
ideologia, governo ou candidato pode ser identificado com o Reino de Deus. Da
mesma forma, nenhum adversário político deve ser transformado em símbolo
absoluto do mal. A consciência cristã precisa resistir tanto à idolatria do
poder quanto à demonização daqueles que pensam de maneira diferente.
A parábola do trigo e do joio também nos
recorda os limites do julgamento humano. A lavoura pertence ao seu verdadeiro
Dono, e a ceifa ocorrerá no tempo determinado por Ele. Isso não significa que o
cristão deva abandonar o discernimento moral ou permanecer indiferente diante
da injustiça. Significa, antes, que seu discernimento deve ser exercido com
humildade, reconhecendo que nenhum ser humano ou instituição possui autoridade
para ocupar o lugar do Juiz definitivo.
Essa consciência é particularmente relevante
para os cristãos que participam da vida pública, inclusive como candidatos,
governantes ou agentes políticos. O poder deve ser compreendido como
responsabilidade, e não como instrumento de autoexaltação. A autoridade
política é legítima enquanto serve ao bem público; torna-se moralmente
corrompida quando é transformada em mecanismo de dominação, enriquecimento
pessoal, mentira ou instrumentalização da fé.
Para o eleitor cristão, especialmente diante
das intensas disputas e polarizações políticas do Brasil contemporâneo, a
perspectiva agostiniana funciona como um importante antídoto contra a idolatria
política. O cristão pode escolher candidatos, avaliar propostas e participar do
processo eleitoral de acordo com sua consciência e seus princípios éticos.
Entretanto, deve fazê-lo sem atribuir a qualquer projeto político a capacidade
de inaugurar o Reino de Deus.
As escolhas políticas devem, portanto, ser
orientadas por critérios de justiça, responsabilidade, defesa da dignidade
humana, cuidado com os vulneráveis, promoção da paz e respeito à ordem social.
Mesmo quando uma decisão política produz resultados positivos, eles serão
sempre parciais e provisórios. A política terrena pode e deve ser utilizada
para o bem comum, mas jamais deve ser amada como um fim último.
A distinção entre as duas cidades não conduz,
portanto, à fuga da sociedade, mas a uma participação mais lúcida nela. O
cristão não abandona a cidade terrena; vive nela como peregrino, consciente de
que sua esperança definitiva está além dela. Sua responsabilidade pública nasce
justamente dessa consciência: ele participa sem idolatrar, exerce autoridade
sem se exaltar, defende princípios sem transformar adversários em inimigos
absolutos e trabalha pelo bem temporal sem perder de vista o bem eterno.
Em suma, a consciência de pertencer à Cidade de
Deus liberta o cristão tanto do desespero quanto do fanatismo político. Os
governos passam, os impérios caem e as estruturas humanas se transformam. A
própria Roma que Agostinho conheceu em sua grandeza experimentou a fragilidade
do poder terreno. O Reino de Cristo, porém, não depende da permanência de
qualquer estrutura política.
Ao participar da vida pública, o cristão
permanece, ao mesmo tempo, cidadão de sua cidade terrena e peregrino em direção
à pátria celestial. Respeita as leis, busca a paz da sociedade onde Deus o
colocou, exerce com responsabilidade seus deveres civis, vigia contra as
seduções do poder e mantém sua esperança final naquele Reino cujo Rei não passa
e cujo domínio não terá fim.
[1] HÄGGLUND. In: AMORIM, Alcides Barbosa de. Fé, cultura e razão:
fundamentos éticos da cosmovisão protestante. Pindamonhangaba/SP: Clube de
Autores, 2026, p. 295-296.
[2] AMORIM, Alcides Barbosa de. Fé, cultura e razão: fundamentos éticos
da cosmovisão protestante. Pindamonhangaba/SP: Clube de Autores, 2026, cap.
12.
Ainda menino, por volta dos dez anos de idade,
costumava ajudar meu pai na pequena lavoura de arroz, no estado do Paraná. Uma de minhas tarefas era
espantar os passarinhos que, em bandos, desciam sobre a terra recém-semeada
para comer os grãos antes que germinassem. Munido de um estilingue, algumas
pedras e muita disposição, passava boa parte do tempo correndo de um lado para
outro, gritando e batendo palmas para afastá-los. No meio da lavoura havia
também um espantalho. Vestia roupas velhas, usava um chapéu de palha e
permanecia imóvel, como um sentinela. Sua missão era a mesma que a minha. Mas
os passarinhos logo descobriram que ele era incapaz de lhes causar qualquer
ameaça. Em pouco tempo, já pousavam tranquilamente sobre seus braços,
indiferentes à sua presença. Minhas ações – enquanto eu estava presente na lavoura - que os espantavam.
Recentemente, deparei-me com uma simulação
digitalizada, uma imagem sintética – mas esta falava! – que recriava a figura
do ex-presidente Jair Bolsonaro sob uma estética peculiar já que o mesmo não
podia comparecer nem falar. Confesso que a imagem não me fez rir. Ela me fez
pensar.
A analogia com a infância saltou-me aos olhos,
mas por uma lógica estritamente inversa. Na política brasileira atual, o
"espantalho" não foi esvaziado pelo tempo; ele foi transformado em um
alvo fixo por aqueles que temem o que ele representa. Fora do embate eleitoral
direto, cassado e silenciado pelas engrenagens do sistema, Bolsonaro foi
forçado a ficar imóvel como aquele sentinela da lavoura de arroz. No entanto,
ao contrário do boneco de palha da minha infância, a simples simulação de sua
imagem ainda é capaz de causar calafrios e reações desmedidas em uma vasta ala
do cenário nacional. Quem são, afinal, estes "muitos" que ainda se
espantam com a mera projeção de sua figura?
Os primeiros a se assustarem são os ocupantes
dos altos gabinetes de Brasília e os burocratas institucionais. Para esse establishment,
a figura de Bolsonaro nunca foi apenas a de um indivíduo, mas o canalizador de
uma força popular conservadora que eles não conseguem compreender nem
controlar. Cada inquérito, cada barreira jurídica e cada tentativa de
apagamento político funcionam como pedradas de um estilingue institucional
contra o sentinela. O pânico deles reside no fato de que, mesmo amarrado ao
poste da inelegibilidade, a sombra do espantalho continua projetando a vontade
de milhões de brasileiros que recusam o pensamento único.
O espanto estende-se também à velha imprensa e
à elite cultural, que assistem, perplexas, à eficácia da imagem sobre o
argumento. Para esses setores, o debate deveria ser controlado por narrativas
acadêmicas e discursos herméticos. Mas a imagem sintética e popular de
Bolsonaro atua como um curto-circuito nesse monopólio. Ela dialoga diretamente
com o homem comum, com o produtor rural e com o trabalhador que enxergam
naquela silhueta uma defesa de seus valores mais profundos: a família, a
liberdade e a pátria. Os "donos do debate" se apavoram porque
percebem que nenhuma teoria sociológica sofisticada consegue anular a conexão
visceral gerada por um simples aceno ou por um meme que circula no WhatsApp ou YouTube.
Essa perseguição obsessiva ganha contornos de
engenharia social em tempos de inteligência artificial. Estamos debatendo
pessoas reais ou espantalhos cuidadosamente inflados para justificar o
arbítrio? O sistema constrói uma caricatura monstruosa do líder conservador
para, sob o pretexto de combater um "perigo iminente", avançar sobre
as liberdades individuais de qualquer cidadão comum. Cria-se o espantalho do
extremismo para que a sociedade aceite, anestesiada, a censura e o
silenciamento de vozes dissonantes.
O paradoxo da lavoura ou do espantalho contemporâneos
é revelador. Enquanto os poderosos gastam energia, tempo e recursos públicos
tentando desestabilizar e rasgar o manto daquele que decidiram isolar, a
semente da direita conservadora continua germinando no solo brasileiro. A
política atual fabrica o medo em torno de um homem silenciado porque sabe que,
no fundo, o verdadeiro perigo para o sistema não é o boneco ou a imagem - que fala
em seu nome – em si. O verdadeiro temor da elite é o despertar da imensa
plantação que aprendeu a olhar para o horizonte sem medo dos predadores da
liberdade.
E por falar em liberdade – mas nem tanto,
diante do cerceamento que testemunhamos disfarçado de legalidade –, fico por
aqui. A tentativa obsessiva de silenciar uma liderança e, por tabela, os
milhões que nela se enxergam, apenas evidencia o quanto as nossas liberdades
fundamentais estão sob constante ameaça daqueles que deveriam protegê-las.
Recordo-me, neste momento, da advertência do filósofo e pensador político
conservador Edmund Burke: "O povo nunca entrega suas liberdades, exceto
sob alguma ilusão". No Brasil atual, a ilusão vendida é a de que,
derrubando o espantalho, a colheita estará segura; a dura realidade, porém, é
que o verdadeiro alvo das foices institucionais sempre foi a nossa própria
capacidade de plantar e colher em liberdade.
Todo ciclo eleitoral levanta a
questão da religião e seu papel no governo. Isso leva muitos a se perguntarem
sobre a relação entre o cristianismo e a democracia. A democracia é uma forma
cristã de governo? A democracia é religiosamente neutra? Ou ela é contraditória
com a Bíblia? Há uma diferença entre o fato de as ideias poderem ou não
coexistir e o fato de serem ou não inseparáveis.
Em resumo, a democracia e o
cristianismo são compatíveis. Obviamente, isso significa que essas ideias não
são contraditórias. Na verdade, tem-se argumentado que a democracia funciona de
forma mais eficaz em uma cultura cristã. Ao mesmo tempo, a democracia não é
necessariamente uma forma cristã de governo. Não há nenhum aspecto necessário
da democracia que exija absolutamente uma visão de mundo cristã. O cristianismo
em si não exige a democracia ou qualquer outra forma de governo terreno.
A democracia pode ser uma
forma cristã de governo e, provavelmente, é mais bem apoiada por uma cultura
cristã, mas não é a única forma válida de governo cristão, e a democracia pode
existir à parte de uma visão de mundo cristã.
A política e a religião
compartilham interesses comuns. Toda lei é baseada em algum princípio moral. A
"política" em geral é uma discussão sobre quanto controle, liberdade
e poder as pessoas devem ter e até que ponto devem ser forçadas a agir da mesma
forma. Esse é um detalhe importante: religião e política se sobrepõem
parcialmente, mas não são a mesma coisa. Assim como alguns sentidos se
sobrepõem, como o olfato e o paladar ou a audição e o tato, a política e a
religião inevitavelmente se cruzam. Mas elas não são a mesma coisa. Uma exceção
notável seria uma religião como o Islã, que explicitamente elimina qualquer
distinção entre o governo terreno e a crença religiosa.
A despeito do que alguns ateus
modernos pensam, o princípio da separação entre Igreja e Estado não significa
que o raciocínio religioso não tenha lugar na política. A postura espiritual de
uma pessoa não só pode influenciar sua política, como o fará. Eliminar fatores
religiosos das políticas públicas é simplesmente um ateísmo imposto pelo
Estado. Isso, é claro, não é funcionalmente diferente de uma teocracia, onde o
governo é dado apenas àqueles com uma visão particular da metafísica.
A separação entre a igreja e o
estado tem o objetivo de impedir que essas duas instituições exerçam controle
formal uma sobre a outra. Nos Estados Unidos, em particular, a intenção
original da Primeira Emenda tinha mais a ver com impedir que o governo interferisse
nas igrejas do que com manter as ideias religiosas fora do governo.
Conforme observado, a Bíblia
não prescreve nenhuma forma específica de governo, seja ela democrática ou não.
O sistema dado ao povo judeu no Antigo Testamento foi planejado exclusivamente
para a nação de Israel. Os cristãos são chamados a cooperar com o conceito
básico de governo (Romanos 13:1-7), independentemente da forma que ele assuma.
Ao mesmo tempo, somos instruídos a obedecer a Deus e não ao homem quando as
leis humanas entram em conflito com a Bíblia (Atos 5:29). Isso não significa
necessariamente uma revolução armada, mas mantém a ideia de que o cristianismo
considera o governo humano e a espiritualidade pessoal como duas categorias
distintas.
A democracia e o cristianismo compartilham várias premissas fundamentais que os
tornam parceiros naturais. A origem do que hoje chamamos de "democracia
moderna", no século XVIII, foi uma cultura nominalmente cristã. Portanto,
é de se esperar que suas premissas políticas reflitam os princípios religiosos.
Um exemplo importante da
influência do cristianismo na política dos EUA é a Declaração de Independência.
Esse documento foi criado para justificar a rebelião colonial contra o rei da
Inglaterra. Como tal, ele faz referência a ideias como verdade objetiva, um
"Criador", igualdade humana, valor intrínseco e responsabilidade
pessoal. Todas essas ideias, de fato, são encontradas em uma única frase da
Declaração:
"Consideramos
estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais,
que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre eles
estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade."
Essa afirmação, por si só,
está fundamentalmente em desacordo com praticamente todas as visões de mundo
que não sejam teístas. O ateísmo rejeita um Criador e não tem meios para
reivindicar "direitos inalienáveis" ou valor intrínseco. O sistema de
castas e o carma do hinduísmo refutam a igualdade humana. A ideia da verdade
evidente contradiz todas as formas de relativismo. A ideia básica de um governo
independente do controle religioso explícito é estranha ao Islã. A questão não
é afirmar que os Estados Unidos ou outras democracias são explícita e
irrevogavelmente cristãs. Tampouco que seja impossível, na prática, que pessoas
com visões de mundo não cristãs participem como cidadãos em uma democracia.
Entretanto, um exame da teologia cristã e da democracia política mostra muitos
pontos em comum. Isso não se aplica à maioria das outras visões de mundo e, de
fato, a maioria dos sistemas religiosos entra em conflito direto com vários
aspectos da democracia.
A história comprova isso,
demonstrando a relação lógica entre as crenças religiosas de uma cultura e sua
posição política. Na prática, o "padrão ouro" de liberdade e direitos
humanos são as nações com herança cristã. E, quando as forças contrárias à
democracia buscam o controle, um de seus primeiros alvos é a fé cristã.
O cristianismo também ajuda a
reforçar a maior fraqueza da democracia: a dependência da fibra moral da
cultura. Ao contrário de ditaduras ou monarquias, em que a bússola moral de uma
única pessoa orienta as leis e políticas da nação, a democracia vai até onde a
cultura vai. Em geral, isso é bom. Significa especialmente que uma pessoa
malvada tem dificuldade em causar estragos nacionais. No entanto, isso também
significa que, à medida que a cultura se afasta dos bons princípios morais, ela
não tem defesa contra o "naufrágio", por assim dizer. Uma nação que
usa o poder democrático para fins egoístas ou irresponsáveis canibalizará sua
própria liberdade.
Como disse o fundador dos EUA,
Benjamin Franklin: "O homem acabará sendo governado por Deus ou por
tiranos". Quando uma cultura abusa de seu poder democrático, o
resultado é o caos e a ruína. Ou uma democracia, guiada pelo autocontrole e
pela moralidade, mantém-se sob controle ou desaba. Quando o colapso acontece, o
controle recai sobre um sistema não democrático, seja voluntariamente ou pela
força. As culturas que se afastam do cristianismo tendem a se afastar da
"verdadeira" democracia para outros esquemas políticos com sabor de
democracia e, por fim, para a sujeição à tirania.
Esse declínio da democracia
faz sentido do ponto de vista lógico. A democracia moderna surgiu de uma
cultura imersa em uma visão de mundo judaico-cristã. É lógico que, quanto mais
uma cultura se afasta dessa visão de mundo, menos compatível ela é com essa
forma de governo.
A democracia, em suas várias
formas, presume que as pessoas, como um todo, são dignas de fazer escolhas por
si mesmas. Ela pressupõe que as pessoas estão dispostas e são capazes de tomar
decisões moralmente sensatas e que acatarão essas decisões em um espírito de
respeito mútuo. A democracia pressupõe o valor dos seres humanos e uma
definição de certo e errado que prevalece sobre as leis do país. O cristianismo
ensina os mesmos princípios básicos, o que o torna a adaptação cultural mais
natural para a democracia.
Outras visões de mundo podem
cooperar com a democracia; entretanto, elas não têm a mesma conexão fundamental
que o cristianismo. A democracia é uma forma de governo naturalmente cristã,
mas não é um esquema político necessariamente cristão.
Também chamada religião cívica, pública ou
política, a religião civil refere-se à aceitação generalizada por um povo de um
conjunto de traços político-religiosos ligados à história e ao destino da sua
nação. Serve para relacionar a sua sociedade com o âmbito do significado
último, possibilita a auto interpretação da sociedade e funciona como o
simbolismo integrante da nação. É a "religião operante" de uma
sociedade (Will Herberg), o sistema de rituais, símbolos, valores, normas e
lealdades que atuam na vida contínua da comunidade e que lhe fornecem um senso
abrangente de união que transcende todos os conflitos e diferenças internos.
Uma religião civil é característica por referir-se ao poder dentro do Estado,
contudo transcende aquele poder ao focalizar-se nas condições últimas.
Teoricamente, fornece tanto a justificativa para o poder como uma base para
criticar aqueles que o exercem. A fé "civil" deve, em certo sentido,
ser independente da igreja como tal; de outra forma, será uma mera legitimação
do Estado pela igreja. Deve ser também genuinamente uma "religião";
caso contrário, será apenas um nacionalismo secular (Phillip Hammond). Requer
uma "teologia civil", porque esta oferece à sociedade um significado
e um destino, interpreta a experiência histórica e fornece um senso de
dinamismo, unicidade e identidade (Maureen Henry). Reduzida aos seus
fundamentos, a religião civil significa que o estado utiliza um consenso de
sentimentos, conceitos e símbolos religiosos - direta ou indiretamente,
consciente ou inconscientemente – visando seus próprios propósitos políticos.
Os comentaristas consideram-na uma fé religiosa "geral" e a
contrastam com a fé "particular de grupos sectários ou denominacionais,
que conseguem a lealdade de apenas um segmento da população.
Embora as características comumente associadas
com a religião civil remontem até ao passado distante, à antiguidade clássica
quando cada polis grega tinha seus próprios deuses, dogma e culto,
Platão desenvolvesse as linhas gerais de uma teologia civil em A República,
e o imperador romano funcionasse tanto como o sacerdote principal na religião
do estado quanto como um objeto de adoração, o termo propriamente dito foi
cunhado por Jean Jacques Rousseau em O Contrato Social (1762). Ele
identificava a fé civil como algo que pudesse lidar com a diversidade religiosa
e, ao mesmo tempo, firmar a lealdade do povo à sociedade civil, de modo que a
paz social fosse conseguida e garantida depois de uma longa era de guerras
destruidoras provocadas pelas diferenças religiosas. Foi somente nas décadas de
1950 e 1960, no entanto, que a religião civil veio a ser um tópico importante
da discussão teológica. O catalisador que a impulsionou para o centro da
atenção erudita foi um estudo apresentado pelo sociólogo Robert N. Bellah em
1965, que asseverava com ousadia: "Poucas pessoas têm percebido que
realmente existe, lado a lado com as igrejas e bem claramente diferenciada
delas, uma religião civil esmerada e bem institucionalizada nos Estados Unidos".
O que se seguiu foi um debate caloroso quanto à natureza da fé pública, e até
mesmo quanto à sua validade como conceito.
O problema chave era a definição, que continua
como alvo de contenda e intensa confusão entre os estudiosos da religião civil.
Russell E. Richey e Donald G. Jones procuraram resolver a dificuldade esboçando
cinco significados gerais, essencialmente inter-relacionados entre si,
propostos por vários escritores, especialmente aqueles que tratam do fenômeno
norte-americano. São:
(1)a religiãofolclórica
– a religião comum que emerge do espírito do povo e da história da sociedade, e
que está em concorrência com a religião particularista;
(2) a religiãouniversaltranscendentedanação – uma crença que a nação tem em comum, que condena os
costumes folclóricos do povo e da nação, e que corrige as tendências idólatras
em formas específicas do cristianismo e do judaísmo;
(3)o nacionalismoreligioso
– a nação assume um caráter soberano, transcendente em si mesma, tornando-se
objeto de adoração e glorificação;
(4)a fédemocrática
– os valores humanitários da igualdade, liberdade e justiça que existem sem
necessariamente depender de uma deidade transcendente ou de uma nação
espiritualizada que represente a religião civil na sua máxima qualidade;
(5)a piedadecívicaprotestante – a fusão entre o protestantismo e o nacionalismo no
espírito característico norte-americano, que se reflete no moralismo,
individualismo, ativismo, pragmatismo e transformação do mundo em campo
missionário.
Uma alternativa oferecida por Martin E. Marty
propõe que há dois tipos de religiões cívicas: aquela que vê uma deidade
objetiva e transcendente como o ponto de referência para o processo social (a nação
sob a orientação de Deus) e aquela que ressalta a autotranscedência nacional.
Dentro destes tipos há duas abordagens – a "sacerdotal", que é
celebrativa, afirmativa e edifica a cultura, e a "profética", que é dialética,
mas tende a ser condenatória. Na primeira categoria, ele inclui Dwight Eisenhower
como sacerdote e Jonathan Edwards, Abraham Lincoln e Reinhold Niebuhr como
profetas. No grupo auto transcendente nacional coloca Robert Welch, Richard Nixon
e J. Paul Williams como sacerdotes, e Sidney Mead e Robert Bellah como profetas.
Argumentando numa direção totalmente diferente, John Murray Cuddihy sustentava
que a fé norte-americana nada mais é do que uma "civilidade
religiosa", um código complexo de ritos que instrui as pessoas a serem
religiosamente inofensivas, tolerantes e sensíveis para com as crenças de
outras pessoas. John F. Wilson sugeriu que as ambiguidades no debate da
religião civil têm sua origem nas "formas de análise misturadas de maneira
não-critica e na confusão de modelos por parte dos diferentes
intérpretes", e delineou quatro "construções" principais, sendo
que cada uma delas é baseada num conjunto distinto de premissas e de tradições
intelectuais. Os modelos são:
(1)social – enfatiza cada
coletividade ou entidade social como sagrada;
(2)cultural – orientado em direção
à análise do funcionamento de um conjunto específico de valores em termos da
interação entre os membros de uma determinada ordem da sociedade, ou seja: a
união e coerência simbólicas de uma sociedade;
(3)político – examina o papel do
comportamento e crenças religiosos dentro de uma sociedade política;
(4)teológico – coloca o conteúdo da
religião pública em uma estrutura abrangente de significado que providencia
normas para a ordem política, para a cultura geral e para a sociedade como um
todo.
Embora seja óbvio que a religião civil seja um
conceito extremamente vago e controvertido, escritores têm detectado as suas
manifestações numa vasta gama de países e sociedades, especialmente na
Inglaterra, na África do Sul, no Japão e nos Estados Unidos. A maior parte da
atenção tem sido dedicada ao cenário norte-americano, onde apareceu uma
religião civil que permitiu que a nação fosse entendida de maneira
transcendente ao passo que, ao mesmo tempo, o pluralismo religioso florescia
nas raízes. Visto que havia uma necessidade de símbolos comuns para objetivos
nacionais que nenhuma igreja individual poderia fornecer, e visto que as
pessoas, sendo ou não membros de igrejas, sentiam-se livres para empregar
símbolos religiosos, as chamadas instituições seculares e seus funcionários
ocuparam um lugar de preeminência na religião civil. A ideologia que subjazia
essa aliança entre a política e a religião era:
(1)que Deus existe;
(2)que a Sua vontade pode
ser conhecida através de processos democráticos;
(3)que a América do Norte
tem sido o agente primário de Deus na história; e
(4)a nação tem sido a
principal fonte de identidade para os norte-americanos.
Eles [norte-americanos] eram considerados como
o povo escolhido de Deus que fez o êxodo para a terra prometida além do mar,
que veio a ser uma cidade num monte, uma luz para as nações, proclamando a
mensagem da democracia como a doutrina de salvação que levaria a humanidade à
liberdade, prosperidade e felicidade. Evidências da fé civil incluem figuras
bíblicas e referências ao Deus Onipotente e à providência que têm permeado os
discursos e os documentos públicos dos líderes norte-americanos desde os tempos
mais antigos, a bandeira da nação exibida com destaque nos santuários das
igrejas, a inclusão de "sob a orientação de Deus" no Compromisso da
Lealdade, e, acima de tudo, o lema nacional: "Confiamos em Deus".
Aqueles que apoiam a religião civil insistem
que as ideias de transcendência e aliança tornem a nação responsável, constituem-se
em cimento numa sociedade que de outra forma é heterogênea, desafiam o país a
concretizar seus ideais mais nobres e servem como instrumentos nas mãos de
líderes políticos sábios (tais como Lincoln e Martin Luther King, Jr.) para
inspirar as pessoas a galgarem níveis mais altos de realização. Seus críticos a condenam por idolatrar a
nação, por tentar os entusiastas patrióticos a distorcer e até mesmo falsificar
a história nacional, a fim de fazê-la encaixar-se nos preconceitos da religião
civil, de aviltar a dignidade de Deus reduzindo-O ao nível de uma deidade
tribal, fornece uma ferramenta para os líderes públicos angariarem apoio para
políticas e aventuras duvidosas, desconsiderando as necessidades das minorias
subjugadas dentro da comunidade nacional.
Muitas pessoas comentam que a fé evangélica, bíblica, é incompatível com
a religião civil, mas não há consenso quanto a isso na comunidade protestante
conservadora.
PIERARD, Richard.
V. Religião Civil. In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor
Walter A. Elwell. São Paulo: Vida Nova: 1988, Vol. III (Pág. 272 a 275 – Texto adaptado).
[1]R. V. PIERARD, Doutor da Universidade de Iowa. Professor de História na Universidade Estadual de Indiana, Terre Haute, Indiana, EUA… (E mais aqui).
[12] Imagem meramente
ilustrativa que representa a fusão simbólica entre crenças religiosas e
identidade nacional ou estatal, como bandeiras com cruzes, monumentos cívicos
com elementos sagrados, criada por I. A. do Perplexity.ai
com fonte identifica em: Shutterstock.com.
Acesso em: 13/02/2026.
Entende-se por ética social o estudo das
questões do bem e do mal, do certo e do errado, da obrigação e da proibição,
conforme elas surgem num contexto social.
1.Introdução e Definição
O governo público, a política, as ciências
econômicas, a guerra, a pobreza, a educação, o racismo, a ecologia e o crime:
estes são exemplos do conteúdo da ética social. A tarefa da ética social pode
ser melhor compreendida em contraste com outros campos correlatos. Em contraste
com os estudos sociais da História – como era a situação no passado, e a
ciência social – o que é a situação, a ética social ocupa-se com aquilo que
deve existir – com normas e valores que servem para julgar o passado e o
presente. Embora a ética social tenha uma tarefa distinta da história e ciência
sociais, ela não pode ser bem-sucedida neste esforço sem uma interação contínua
com estes campos correlatos.
Conforme acontece no caso de outros subcampos
da ética, a ética social pode ser abordada descritivamente (Qual
é o caráter desta moralidade? Desta linguagem ética?) ou prescritivamente
(proponho este conjunto de valores, estas normas e princípios, este modo de
resolver um dilema ético). Uma distinção adicional deve ser feita entre o discernimento
ético e a implementação ética. A ética social inclui a reflexão sobre o
problema da análise e o discernimento do bem social, bem como sobre o problema
da estratégia e da implementação do bem social. Assim como a teologia dogmática
existe para servir a igreja na sua proclamação e adoração, a ética social
existe para servir ao mundo por meio de reformas sociais que o conformarão mais
estreitamente àquilo que é justo, bom e certo.
É impossível manter uma distinção clara e
precisa entre a ética social e a ética pessoal (individual). Todo
comportamento individual tem implicações sociais. Toda situação ou problema
social tem repercussões individuais. Apesar disso, para propósitos analíticos é
útil tratar a ética social como um campo separado, e dirigir a atenção básica aos
aspectos éticos dos grupos sociais, das instituições e dos problemas coletivos
(raciais, econômicos, políticos etc.). Portanto, em contraste, a ética pessoal
focaliza o agente moral individual.
Como no caso da ética pessoal, a ética social
dirige sua atenção a dois conjuntos gerais de perguntas (cada um dos quais tem
um aspecto de discernimento e de implementação, conforme observado acima). O
primeiro tem a ver com a existência (caráter), e o segundo, com o agir
(decisão e ação específicas). Embora este último (a reflexão sobre dilemas
éticos específicos e imediatos) seja frequentemente uma tarefa urgente para a
ética social, o outro tem, no mínimo, importância igual; ou seja, por trás de
atos e dilemas específicos existem atitudes, disposições e processos que podem
ser justos ou injustos, bons ou maus. Este é o problema do mal corporativo e
estruturado. Para a ética social, o bem e o mal não estão localizados meramente
em agentes morais individuais nem em decisões e ações específicas: também são
atributos de instituições, tradições e disposições e processos sociais.
Somente nestes últimos cem anos é que a ética
chegou a ter seu próprio lugar como especialização acadêmica nos departamentos
de Filosofia, Teologia, e de estudos religiosos. Para a ética social cristã, no
entanto, é essencial reconhecer que o assunto recebeu muita atenção em todas as
partes da Bíblia, desde o Gênesis até ao Apocalipse. Assim, também, a maioria
dos líderes e mestres da igreja cristã, no decurso destes últimos dois mil
anos, tem dado atenção à ética social, ainda que não tenha empregado exatamente
este rótulo. Uma ética social cristã contemporânea deve estar arraigada nas
Sagradas Escrituras como a Palavra de Deus e ser regida por elas. Deve ser
afetada pelo testemunho e pela experiência da igreja no decurso da História. E
deve estar em diálogo frutífero com a história e ciência sociais, conforme foi
sugerido acima.
2.Análise e Discernimento
A primeira tarefa da ética social cristã é a
análise de estruturas e situações e o discernimento do bem e do mal em relação
a estas.
a)A
Revelação e a Observação
A análise ética social cristã avança numa
dialética entre a revelação, a Palavra de Deus "de cima", e a
observação e experiência, "de baixo. Um realismo social deve sondar abaixo
dos problemas da superfície, para chegar a um discernimento correto das forças
e problemas fundamentais da nossa sociedade. Qual é o arcabouço e quais são as
correntezas principais que jazem imediatamente abaixo da superfície de eventos
e dilemas atuais? Ao mesmo tempo, a análise e o discernimento são orientados
pela revelação bíblica, pela Palavra de Deus. Desde o relato em Gênesis, quando
Deus questionou a Adão, Eva e Caim, até quando Jesus questionou a Pedro e aos
discípulos, a ética social está arraigada nesta Palavra de Deus. Deus não
somente ilumina, corrige e aprofunda as nossas observações da realidade social,
mas Ele também levanta novas questões e problemas que, frequentemente, passam
despercebidos, até mesmo pela análise sociológica mais realista. Deste modo, a
ética social cristã tem um papel distintivo a desempenhar na sociedade em
geral, ao dar expressão às perspectivas divinas reveladas quanto aos negócios
humanos.
b)A Criação
Boa parte da ética social teológica
tradicional tem sido formada por apelos a ordens de criação (ou
"esferas" ou "mandatos"). As ordens da família e do
casamento, da política e do Estado, do trabalho e da economia e, às vezes, até
mesmo outras têm sido compreendidas não somente por referência à revelação
bíblica, como também ao bom-senso, à razão e à lei natural. Cada ordem ou
esfera tem seu próprio propósito distintivo e seu arcabouço ético
correspondente. Todas as ordens estão debaixo da derradeira soberania de Deus.
Críticos desta posição têm argumentado que (1) vivemos num mundo caído, em que
os apelos a uma criação já perdida são mal orientados, e (2) a própria Bíblia,
raramente, ou talvez nunca, desenvolve uma "ética da criação".
Quer a ética social esteja fundamentada
basicamente sobre ordens da criação, quer não, certos elementos da revelação
bíblica sobre a criação continuam a ter importância para a ética social cristã
(cf. Gn 1-2). O "bem" ético é definido pela vontade, palavra e obra
de Deus. Pretende-se que a humanidade seja uma co-humanidade: uma participação
social e alegre de seres humanos diante de Deus ("Não é bom que o homem
esteja só"). Um conceito positivo da política e do Estado percebem que
estão arraigados na natureza social da humanidade criada, e subentendidos por
esta. O casamento é implicitamente monógamo e caracterizado por ser uma
parceria diante de Deus. O trabalho é fundamentalmente uma questão de
criatividade (à imagem do Criador) e de mordomia (lavrar a terra e subjugá-la).
c)A Queda
Por mais importante que a doutrina da criação
seja para a ética social, a revelação a respeito da Queda é igualmente
importante. A Queda (Gn 3) indica que o mal se origina na rebeldia contra Deus
e na desobediência ao Seu mandamento. O mal é manifestado na acusação, na
divisão e no domínio de um ser humano sobre outro (Adão e Eva, Caim e Abel). A
saída de Caim de diante da presença de Deus, a fim de edificar a sua própria
cidade e sociedade (Gn 4) e a revelação subsequente a respeito da cidade
(Babel/Babilônia, Ninive etc.) completam esta descrição inicial do mal social. Suas
características essenciais são orgulho, desobediência a Deus, acusação,
divisão. dominação, exploração, violência, bem como cobiça do poder.
Perspectivas posteriores no pensamento
hebraico-cristão desenvolveram este conceito da Queda em termos da inimizade
dos "principados e potestades" cósmicos contra os propósitos de Deus.
Como estruturas de forças sociais, podemos ter um aspecto demoníaco
corporativo. O mal não é simplesmente um fenômeno individual, mas também uma
questão de corpo e estrutura. À luz deste fato, o Estado (ou o trabalho, ou o
dinheiro) é eticamente ambíguo: pode promover uma co-humanidade, que refreia os
homens sociais, e pode ser o habitat dos poderes rebeldes. Tanto a
história social quanto a ciência social, usando terminologias e métodos de
pesquisa diferentes, confirmam a revelação bíblica no tocante ao potencial ambíguo,
transpessoal e estrutural do Estado (e de outras instituições sociais).
d)Lei e Justiça
A ética social cristã, e na verdade toda
ética social, frequentemente se centraliza no problema da justiça e da sua
institucionalização na lei. O relacionamento entre a lei moral divina revelada
e a lei civil positiva foi motivo de reflexão intensiva por Tomás de Aquino,
João Calvino e muitos outros pensadores cristãos clássicos. Uma ética social
cristã deve ser orientada não só pelo exemplo da teocracia de Israel antigo (em
que as associações entre os Dez Mandamentos e o Livro da Aliança e o Código da
Santidade são bastante diretas), mas também pelo exemplo de Israel no exílio e
no cativeiro (onde o povo do mundo vive numa situação alienada).
De qualquer maneira, a justiça (a retidão e o
juízo) é uma das normas éticas mais importantes para a ética social cristã.
"Eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque
estas coisas me agrado, diz o Senhor" (Jr 9.24). “O Senhor faz
justiça, e juga a todos os oprimidos” (SI 103.6). A justiça bíblica é mais
importante do que equidade e igualdade. Revela-se como alguém que entende as
justas queixas dos oprimidos. Não se mantenha em tensão com o amor, mas inclui
o amor e a misericórdia. Numa era em que a justiça e a lei têm sido reduzidas,
em muitos aspectos, a termos quantitativos, técnicos, a ética social cristã
deve dar expressão ao conceito bíblico de justiça: qualitativa, de origem
divina e de solicitude humana.
e)O Reino de Deus
Até os éticos sociais das ordens-da-criação
mais intransigentes reconhecem que uma nova ordem de redenção toma lugar na
sociedade com a vinda de Jesus Cristo e a fundação da Igreja. Esta Igreja é (ou
deve ser) o principal exemplar do reino de Deus que permanece em tensão com o
reino deste mundo. Segundo os termos de Agostinho, os fatores constituintes
mais importantes da história social são a cidade de Deus e a cidade terrestre.
A primeira é dinamizada pela charitas, o amor a Deus, e a segunda, por cupiditas,
o amor próprio. Para Martinho Lutero, os dois reinos são diferentes entre si
neste ponto: O reino de Deus é uma questão de fé no íntimo, ao passo que o
reino civil diz respeito aos assuntos exteriores. É natural que, para Agostinho,
Lutero e outros, o quadro seja consideravelmente mais complexo do que estes
resumos. Não deixa de permanecer, porém, uma distinção na ética social cristã
entre a realidade coletiva, que toma Jesus Cristo como seu ponto de partida, e
tudo o mais.
É em Jesus Cristo que a palavra de Deus é
mais clara e complementa revelada – para a ética social bem como para todas as
demais coisas. O ensino social de Jesus é revelado na Sua declaração de
"plataforma" (Lc 4.18-21), na Tentação (Mt 4), nas Suas parábolas e
discursos, no Sermão do Monte (Mt 5-7), no Seu discurso da despedida (Jo 13-17)
e nos eventos da Crucificação e da Ressurreição. Os grandes mandamentos no
sentido de amar a Deus e ao próximo, o chamado ao serviço e ao sacrifício sem
qualificações, a Regra Áurea, o chamado à simplicidade, para longe da
inspiração a Mamom (riquezas), e assim por diante, revelam as dimensões essenciais
da ética social de Jesus. A ética cristã social deve refletir não apenas sobre
as interpretações tradicionais e majoritárias do significado de Jesus Cristo,
do reino de Deus e do mandamento do amor, mas também sobre a interpretação e
aplicação deste ensino social pelos franciscanos, anabatistas, quacres e outros
que desenvolveram uma ética social baseada em Jesus Cristo.
f)Escatologia
A ética social cristã é fundamentalmente
escatológica na sua natureza; ou seja, inclina-se em direção à chegada futura e
completa do juízo e da graça de Deus. Mais do que a criação original, a nova
criação é invocada para a orientação ética no NT. O reino de Deus, que está
verdadeiramente presente (em parte), será (plenamente) revelado no fim. Jesus
Cristo é o novo Adão. O Espirito Santo é o “pagamento inicial” que garante o
futuro – não apenas o reflexo da criação original. A história avança em direção
à nova Jerusalém, e não regride para uma idade de ouro no Éden. Por estas
razões, o Apocalipse tem significado ético-social específico, por revelar o
juízo ético final de Deus contra a sociedade humana, em termos da Babilônia (Ap
18) e da nova Jerusalém (Ap 21).
É neste juízo final que os principados e
potestades são destronados final e completamente, terminando a obra de Jesus
Cristo que, "despojando os principados e as potestades, publicamente os
expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz" (Cl 2.15). Babilónia é a
habitação de Satanás, dos principados e das potestades. É condenada por ter
permitido que os mercadores da terra se enriquecessem às custas da sua luxúria,
pelo seu orgulho e poder, pelos seus maus tratos aos santos, profetas e
apóstolos, pelo seu tráfico de corpos e almas dos seres humanos, pela violência
e pelo derramamento de sangue. A nova Jerusalém, em contraste, é o lugar onde
habita Deus, onde estão eliminados a morte, o luto e a dor, onde ficam
satisfeitos os sedentos e os famintos, onde não ocorre nada de vergonhoso nem
de doloso, onde as portas da cidade estão abertas a todas as nações.
Considerando as diretrizes destacadamente escatológicas da ética social
bíblica, a ética cristã leva a sério este cenário apocalíptico final no
discernimento daquilo que é socialmente bom ou mau.
3.A Estratégia e a Implementação
A primeira tarefa da ética social cristã,
portanto, é a análise e o discernimento do bem e do mal social, fazendo uso da
história social da ciência social e, acima de tudo, da ética social bíblica. A
segunda tarefa é refletir sobre o relacionamento entre Cristo e a cultura ou
seja: entre o mandamento ético de Deus e a situação social. É o problema da
estratégia e da implementação.
a)Perspectivas Tradicionais
A reflexão contemporânea sobre como a
convicção cristã (ou religiosa) se relaciona com a sociedade tem sido
grandemente influenciada por historiadores e cientistas sociais. Embora Karl
Marx, Emile Durkheim e outros também tenham tido influência considerável, esta
reflexão deve-se mais aos estudos pioneiros realizados por Max Weber, Ernst
Troeltsch e H. Richard Niebuhr. Os estudos de Weber do papel do profetismo e do
carisma, sua quádrupla tipologia de relacionamento entre os grupos religiosos e
o mundo (o asceticismo do mundo interior e do outro mundo, o misticismo
do mundo interior e do outro mundo) e seu estudo clássico, A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo, continuam a ser um ponto de
partida importante para a reflexão sobre os problemas da estratégia e da
implementação das preocupações éticas sociais cristãs.
O livro de Troeltsch, The Social Teaching of
the Christian Churches ("O Ensino Social das Igrejas Cristãs"), propôs,
com ilustrações históricas volumosas, uma tríplice tipologia de igreja, seita e
associação mística. H. R. Niebuhr desenvolveu e modificou a tipologia de
Troeltsch em cinco categorias que permanecem influentes em muitos debates
atuais. "Cristo contra a cultura" é representado pela abordagem sectária,
anabatista. "O Cristo da cultura" é representado pela abordagem
acomodacionista. "Cristo acima da cultura" é representado por Tomás
de Aquino e uma abordagem sintética. "Cristo e a cultura em paradoxo"
é representado por Lutero e pela abordagem dualista. "Cristo, o
transformador da cultura" é representado por Agostinho e pela abordagem
conversionista.
As tipologias sociais científicas e
históricas, como as citadas acima, não conseguem tratar as tradições
individuais. Nem levam suficientemente em conta o caráter “denominacional” e
“leigo” da sociedade contemporânea. Sendo categorias provenientes das divisões
do século XVI (ou até mesmo do século XIX), não podem ser diretamente
transferidas e aplicadas aos finais do século XX. Apesar disso, a reflexão
sobre a estratégia e a implementação contemporâneas são grandemente empobrecidas
por não se levar em conta estas perspectivas tradicionais.
a)A Oração e a Evangelização
Do ponto de vista da ética social bíblica, as
atividades de oração e evangelização não devem ser subestimadas como
estratégias para a mudança social. Como base desta cosmovisão judaico-cristã
está a convicção de que Deus participa da História humana e nela intervém, pelo
menos parcialmente, como resposta à oração do povo. Súplicas, orações,
intercessões, ações de graça, devem ser feitas por todas as pessoas, inclusive
por aqueles que detêm autoridade política (1 Tm 2.1-2). A oração, portanto, é
uma atividade política e social de grande importância, entre outras atividades.
Faz, também, parte básica do ponto de vista
cristão proclamar o evangelho de Jesus Cristo na esperança de que homens e
mulheres venham a conhecê-lO como Salvador, Senhor e Deus. Embora a ética
social se preocupe basicamente com o bom e o mau das estruturas coletivas, ela
faz parte dos agentes morais individuais que são afetados pela realidade
coletiva e institucional. A evangelização, entre outras coisas, leva a efeito a
mudança social por meio da transformação daqueles que agem na sociedade, os
agentes morais individuais.
b)Comunidade Alternativa
Longe de se tratar de um afastamento
irresponsável e despreocupado quanto ao dever social, a formação de uma
comunidade cristã alternativa desempenha um papel importante na implementação
da mudança ético-social. Uma comunidade alternativa básica é a igreja (tanto no
seu sentido local quanto no seu sentido mais amplo). Negócios, escolas, grupos
políticos e outras associações, todos puramente cristãos, são outros meios
pelos quais esta estratégia pode ser empregada.
Comunidades cristãs alternativas têm uma
relevância quíntupla para a implementação da preocupação social. Em primeirolugar, a comunidade é um contexto essencial para a deliberação e
discernimento morais. Os dons e capacidades individuais dos membros da
comunidade combinam-se para discernir as melhores respostas possíveis às
questões e dilemas da sociedade contemporânea. Em segundolugar,
a própria existência da comunidade (com sua dedicação total a Jesus Cristo)
contribui para a saúde da sociedade ao "abrir" a ordem social. Tendências
totalitárias e monistas são restringidas pela existência de comunidades
alternativas na sociedade. Em terceirolugar, a comunidade cristã
fornece à sociedade um exemplo de “outra maneira” de lidar com vários problemas
sociais (padrões de liderança, atividades de bem-estar e assim por diante). Em quartolugar, uma comunidade pode funcionar como um laboratório onde diversas
formas podem ser testadas, refinadas e demonstradas. Em quintolugar,
a comunidade prepara e assiste indivíduos que saem da comunidade para diversas
estruturas e situações na sociedade em geral. É um recurso não só de
discernimento, mas também de ação social.
c)A Participação Institucional
Conforme demonstram Moisés, Daniel, Paulo e
outros personagens bíblicos, a participação direta nas estruturas e
instituições políticas (e outras) da sociedade é outra estratégia disponível
para a implementação da preocupação ético-social. Especialmente nas
circunstâncias em que os cristãos (juntamente com outras pessoas) são
convidados a exercer uma responsabilidade política e social, é apropriado
considerar que a participação institucional é um meio válido de implementar a
convicção ética. A políticaeleitoral, as reformaslegislativas,
as ativaçõescomerciais e profissionais e a educaçãopública são exemplos das esferas institucionais onde talvez fosse
necessária a participação. As fronteiras de tal participação são estabelecidas
por dois critérios. Em primeirolugar, nenhum cristão está, em
caso algum, autorizado a violar o mandamento de Deus: “Antes importa
obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). Em segundolugar,
nenhum grupo ou indivíduo cristão está autorizado, em tempo algum, a impor
unilateralmente (coercivamente) os padrões morais do reino de Deus sobre o
mundo. Os cristãos devem ser o sal da terra, a luz do mundo e ovelhas entre
lobos: têm presença e impacto, mas não por meio de coerção e dominação.
d)Meios e Fins
A ética social bíblico-cristã, tanto no
discernimento quanto na implementação, não aceita a classificação fácil como
ética deontológica (fazendo o que é certo sem levar em conta as
consequências) ou como ética teleológica (o fim justifica os meios). Em
especial, porém, uma abordagem teleológica viola uma mensagem bíblica. Não são justificados
nem permissíveis meios malignos, em circunstância alguma (Rm 6). O cristão é
chamado a “vencer o mal com o bem” (12.21). Visto que os meios escolhidos
afetam o caráter do fim, um bom fim pode ser alcançado somente pelo emprego de
bons meios. A justiça será alcançada apenas pelos justos; a paz, por meios
pacíficos; a liberdade ou a igualdade, por meios caracterizados pela liberdade
e igualdade. A reflexão cristã sobre a estratégia e a implementação do bem que
é discernido sempre ressaltará este relacionamento indissolúvel entre meios e
fins.
Notas / Referências bibliográficas:
[1]Capa de Word of God in the Ethics
of Jacques Ellul, um dos livros de Gill, que foi publicado em 1984. David
W. Gill, nascido em 1946 em Omaha, Nebraska, EUA, é um autor, professor e
palestrante norte-americano, especializado em ética cristã, ética no local de
trabalho e ética organizacional... Veja mais em: <https://www.davidwgill.org/bio?utm_source=chatgpt.com>. Acesso em: 14/11/2025.
[2] GILL, David W. Ética Social.
In: Enciclopédia Histórico-Teológica. Editor Walter A. Elwell. Vol. II. São
Paulo: Vida Nova: 1988, Pág. 97 a 102
(Texto adaptado).