
“Os sentimentos vão
e vêm, e a maioria deles é enganosa. Deixe que a Palavra de Deus seja o seu
firme fundamento” (C. S. Lewis).
“Tu, Senhor,
guardarás em perfeita paz aquele cujo propósito é firme, porque em ti confia”
(Isaías 26.3).
Sentimento é uma expressão que carrega muitos
sentidos ou significados. Por isso, costumamos usá-la no plural. Um destes
significados para "sentimentos", que achei bem abrangente, diz
ser: “... estados afetivos duradouros que surgem como resposta à forma como
percebemos e interpretamos experiências, situações e memórias. Eles envolvem a
atividade mental consciente e estão profundamente ligados à nossa história de
vida, valores e relações pessoais” [1].
Diante disso, qual o meu ou o seu “estado de
espírito” hoje?
Você já ouviu expressões do senso comum como “mente
vazia, oficina do diabo”, “quem canta seus males espanta”, “a
paciência tem limite” ou sobre alguém estar “com a cabeça nas nuvens”
e com o “coração leve, vida leve”?
Já ouviu também ou leu na Bíblia expressões
como: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração o
espírito se abate” (Pv 15.13); “O coração alegre é bom remédio, mas o
espírito abatido seca até os ossos” (Pv 17.22); “E a paz de Deus, que
excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo
Jesus” (Fp 4.7) ou ainda: “Não vos entristeçais, porque a alegria do
Senhor é a vossa força” (Ne 8.10)?
Seja na sabedoria popular das ruas ou nas
páginas milenares das Escrituras Sagradas, a humanidade sempre buscou traduzir
em palavras aquilo que acontece no seu íntimo. Essas frases revelam uma verdade
universal: o nosso estado de espírito não é apenas uma reação automática ao
mundo exterior, mas o filtro invisível através do qual escolhemos enxergar e
viver a realidade. Compreender a mecânica por trás dos nossos sentimentos é,
portanto, o primeiro passo para governar a própria vida.
Como cristão conservador, tenho sido acometido,
na última semana, de um sentimento de incerteza que tem tomado conta de meus
pensamentos. São muitas dúvidas e uma aparente falta de perspectiva de melhoras
para o futuro em nosso país, sobretudo nos aspectos político, econômico, social
e cultural. Em meio a esse cenário, encontrei eco para o meu estado de espírito
na máxima filosófica que diz: “o solo da dúvida é desconfortável, mas é o
único lugar onde a coragem consegue criar raízes”. Essa transição do
desconforto para a coragem exige que não nos deixemos abater e, acima de tudo,
que não percamos a racionalidade. Historicamente, foi nessa mesma linha que René
Descartes conectou a dúvida à própria racionalidade ao formular a
"Dúvida Metódica" e concluir em sua célebre frase: “Cogito, ergo
sum” (Penso, logo existo) [2]. A dúvida, portanto, não
deve nos paralisar na angústia, mas acionar o nosso raciocínio para analisar a
realidade com clareza.
Para o cristão, contudo, a razão e a lucidez
intelectual são apenas o ponto de partida. Diante da instabilidade
institucional e da inversão de valores na cultura, somos chamados a lembrar que
o Deus a quem servimos soberanamente detém o controle de toda a história
humana. As Escrituras não nos deixam órfãos de direção sobre como agir em
relação ao governo e às estruturas da sociedade. Na esfera política, o apóstolo
Paulo nos exorta em Romanos 13 a reconhecer que não há autoridade que não
proceda de Deus, orientando-nos em 1 Timóteo 2.1-2 a orar por aqueles que
exercem o governo, para que possamos viver uma vida mansa e pacífica. Essa
postura não é de passividade, mas de um posicionamento consciente e ordeiro,
que rejeita o caos e promove a justiça à luz dos mandamentos divinos.
No que tange à economia e ao bem-estar social,
a sabedoria teológica nos ensina que o trabalho honesto, a propriedade e o
cuidado com o próximo são ordenanças divinas desde o Gênesis. Mesmo quando as
políticas econômicas geram incerteza e inflação, a Bíblia nos instrui a manter
a integridade, a sermos diligentes e a confiarmos na providência, lembrando que
"o meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas
necessidades" (Filipenses 4.19). Culturalmente, em tempos de
relativismo e crise moral, a nossa ação deve ser a de exercer o papel de "sal
da terra e luz do mundo" (Mateus 5.13-14), preservando a verdade
através do exemplo, da defesa da família e dos valores inegociáveis da nossa
fé.
Caminhando para o desfecho desta reflexão,
compreendemos que o equilíbrio do cristão maduro reside justamente em não
balizar sua vida pela instabilidade das emoções humanas. Como bem nos advertiu
C.S. Lewis, os sentimentos podem ser terras movediças em tempos de crise, mas a
nossa segurança repousa no firme fundamento da soberania divina. A razão,
portanto, nos mantém firmes no chão da realidade, permitindo-nos analisar os
fatos com lucidez e sem ilusões ideológicas. Por outro lado, a fé nos mantém
conectados ao céu das possibilidades, capacitando-nos a agir com esperança viva
mesmo quando as circunstâncias terrenas dizem o contrário. Ao unirmos a mente
vigilante à confiança inabalável expressa pelo profeta Isaías, encontramos a
perfeita paz que guarda o nosso propósito. É esse alinhamento entre a razão
inteligente e a fé inabalável que nos impede de sermos levados pelos ventos de
incerteza, firmando nossos passos na rocha eterna que nenhum governo, crise ou
cultura pode abalar.
Que Deus, o nosso Pai, por meio de nosso Senhor
Jesus Cristo, nos abençoe ricamente. Que neste final de 2026, ao longo de todo
o ano de 2027, e até o dia em que o Senhor nos permitir caminhar nesta terra,
os nossos sentimentos, pensamentos e ações sejam profundamente moldados
pelo Espírito Santo. Amém!
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Notas:
- [1] O que são os Sentimentos. Disponível em: https://www.significados.com.br/sentimentos/. Acesso em: 02/11/2026.
- [2] Como já falamos neste e neste outro artigos. Também dedicamos um bom espaço sobre o chamado racionalismo cartesiano no capítulo 6 do meu livro, citado acima.



