Blog do Amorim: Sentimentos!

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3 de novembro de 2026

Sentimentos!

“Os sentimentos vão e vêm, e a maioria deles é enganosa. Deixe que a Palavra de Deus seja o seu firme fundamento” (C. S. Lewis).

“Tu, Senhor, guardarás em perfeita paz aquele cujo propósito é firme, porque em ti confia” (Isaías 26.3).

Sentimento é uma expressão que carrega muitos sentidos ou significados. Por isso, costumamos usá-la no plural. Um destes significados para "sentimentos", que achei bem abrangente, diz ser: “... estados afetivos duradouros que surgem como resposta à forma como percebemos e interpretamos experiências, situações e memórias. Eles envolvem a atividade mental consciente e estão profundamente ligados à nossa história de vida, valores e relações pessoais” [1].

Diante disso, qual o meu ou o seu “estado de espírito” hoje?

Você já ouviu expressões do senso comum como “mente vazia, oficina do diabo”, “quem canta seus males espanta”, “a paciência tem limite” ou sobre alguém estar “com a cabeça nas nuvens” e com o “coração leve, vida leve”?

Já ouviu também ou leu na Bíblia expressões como: “O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração o espírito se abate” (Pv 15.13); “O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido seca até os ossos” (Pv 17.22); “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Fp 4.7) ou ainda: “Não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa força” (Ne 8.10)?

Seja na sabedoria popular das ruas ou nas páginas milenares das Escrituras Sagradas, a humanidade sempre buscou traduzir em palavras aquilo que acontece no seu íntimo. Essas frases revelam uma verdade universal: o nosso estado de espírito não é apenas uma reação automática ao mundo exterior, mas o filtro invisível através do qual escolhemos enxergar e viver a realidade. Compreender a mecânica por trás dos nossos sentimentos é, portanto, o primeiro passo para governar a própria vida.

Como cristão conservador, tenho sido acometido, na última semana, de um sentimento de incerteza que tem tomado conta de meus pensamentos. São muitas dúvidas e uma aparente falta de perspectiva de melhoras para o futuro em nosso país, sobretudo nos aspectos político, econômico, social e cultural. Em meio a esse cenário, encontrei eco para o meu estado de espírito na máxima filosófica que diz: “o solo da dúvida é desconfortável, mas é o único lugar onde a coragem consegue criar raízes”. Essa transição do desconforto para a coragem exige que não nos deixemos abater e, acima de tudo, que não percamos a racionalidade. Historicamente, foi nessa mesma linha que René Descartes conectou a dúvida à própria racionalidade ao formular a "Dúvida Metódica" e concluir em sua célebre frase: “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo) [2]. A dúvida, portanto, não deve nos paralisar na angústia, mas acionar o nosso raciocínio para analisar a realidade com clareza.

Para o cristão, contudo, a razão e a lucidez intelectual são apenas o ponto de partida. Diante da instabilidade institucional e da inversão de valores na cultura, somos chamados a lembrar que o Deus a quem servimos soberanamente detém o controle de toda a história humana. As Escrituras não nos deixam órfãos de direção sobre como agir em relação ao governo e às estruturas da sociedade. Na esfera política, o apóstolo Paulo nos exorta em Romanos 13 a reconhecer que não há autoridade que não proceda de Deus, orientando-nos em 1 Timóteo 2.1-2 a orar por aqueles que exercem o governo, para que possamos viver uma vida mansa e pacífica. Essa postura não é de passividade, mas de um posicionamento consciente e ordeiro, que rejeita o caos e promove a justiça à luz dos mandamentos divinos.

No que tange à economia e ao bem-estar social, a sabedoria teológica nos ensina que o trabalho honesto, a propriedade e o cuidado com o próximo são ordenanças divinas desde o Gênesis. Mesmo quando as políticas econômicas geram incerteza e inflação, a Bíblia nos instrui a manter a integridade, a sermos diligentes e a confiarmos na providência, lembrando que "o meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades" (Filipenses 4.19). Culturalmente, em tempos de relativismo e crise moral, a nossa ação deve ser a de exercer o papel de "sal da terra e luz do mundo" (Mateus 5.13-14), preservando a verdade através do exemplo, da defesa da família e dos valores inegociáveis da nossa fé.

Caminhando para o desfecho desta reflexão, compreendemos que o equilíbrio do cristão maduro reside justamente em não balizar sua vida pela instabilidade das emoções humanas. Como bem nos advertiu C.S. Lewis, os sentimentos podem ser terras movediças em tempos de crise, mas a nossa segurança repousa no firme fundamento da soberania divina. A razão, portanto, nos mantém firmes no chão da realidade, permitindo-nos analisar os fatos com lucidez e sem ilusões ideológicas. Por outro lado, a fé nos mantém conectados ao céu das possibilidades, capacitando-nos a agir com esperança viva mesmo quando as circunstâncias terrenas dizem o contrário. Ao unirmos a mente vigilante à confiança inabalável expressa pelo profeta Isaías, encontramos a perfeita paz que guarda o nosso propósito. É esse alinhamento entre a razão inteligente e a fé inabalável que nos impede de sermos levados pelos ventos de incerteza, firmando nossos passos na rocha eterna que nenhum governo, crise ou cultura pode abalar.

Que Deus, o nosso Pai, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, nos abençoe ricamente. Que neste final de 2026, ao longo de todo o ano de 2027, e até o dia em que o Senhor nos permitir caminhar nesta terra, os nossos sentimentos, pensamentos e ações sejam profundamente moldados pelo Espírito Santo. Amém!

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Notas:

  •  [2] Como já falamos neste e neste outro artigos. Também dedicamos um bom espaço sobre o chamado racionalismo cartesiano no capítulo 6 do meu livro, citado  acima.

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