Blog do Amorim

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21 de setembro de 2026

Qual é a visão cristã da política?



Sobre a relação do cristão com a política, já postei no meu blog alguns artigos, por exemplo:

·    As Duas Cidades: Igreja, Estado e a Ética Cristã na Vida Pública, artigo que destaca a obra A Cidade de Deus, escrita por Agostinho de Hipona no século V, e que define a história e a vida pública a partir de dois amores fundamentais do coração humano: a Cidade de Deus, formada por aqueles que amam a Deus e buscam a justiça verdadeira, e a cidade terrena, guiada pelo amor-próprio e pela busca desordenada por poder e glória pessoal.

·   Cidadãos do Céu, Eleitores na Terra: a política sob a cosmovisão cristã, uma reflexão bíblica e histórica (cristã) sobre a relação entre a fé cristã e a esfera política... Esta frequentemente oscila entre o isolamento alienado e o ativismo ideológico, mas uma análise bíblica e histórica revela um caminho de engajamento consciente e responsável. Citei alguns políticos citados na Bíblia e na história...

·   A democracia é uma forma cristã de governo?, sobre e artigo do Ministério Got Questions que defende como sendo compatíveis a democracia e o cristianismo. Ou seja, essas ideias não são contraditórias. Na verdade, tem-se argumentado que a democracia funciona de forma mais eficaz em uma cultura cristã. Ao mesmo tempo, a democracia não é necessariamente uma forma cristã de governo. Não há nenhum aspecto necessário da democracia que exija absolutamente uma visão de mundo cristã. O cristianismo em si não exige a democracia ou qualquer outra forma de governo terreno.

Agora, nas linhas abaixo, quero compartilhar o artigo do  Compellingtruth.org[1], sob o título acima (traduzido e adaptado).

1.    O que diz a Bíblia?

O nível de participação cristã na política varia, mas os crentes podem concordar em alguns pontos com base no que a Bíblia ensina. As Escrituras ensinam que Deus é soberano, então os governantes estão em autoridade pela mão de Deus. Por causa disso, os cristãos devem submeter-se às autoridades governantes, a menos que isso nos force a comprometer o que Deus nos pediu para fazer. Os crentes também devem orar pelos nossos líderes. As Escrituras ensinam que devemos ser bons administradores dos papéis que Deus nos deu, incluindo os nossos deveres como cidadãos. Em todas as nossas posições, políticas ou não, devemos demonstrar e promover a justiça. Finalmente, a nossa participação na política, como em qualquer outra faceta da nossa vida, deve trazer glória a Deus.

2.    Do Antigo Testamento

·   Deus é soberano sobre toda a criação, incluindo o cenário político. Daniel 4.17 diz: "O Altíssimo governa o reino dos homens e o dá a quem quiser". Daniel 2.21 diz: " "Ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis". Durante o tempo de Daniel, Deus tinha usado Nabucodonosor, o governante da Babilônia, para punir Judá.

·   As posições políticas são importantes. Nunca devemos defender posições que vão contra o que Deus considera injusto. Vários dos Provérbios ensinam que devemos defender a justiça:

=> “A justiça engrandece a nação, mas o pecado é vergonha para qualquer povo” (Pv 14.34).

=> “A maldade é detestável para o rei, pois seu governo é estabelecido sobre a justiça” (Pv 16.12).

=> “Absolver o culpado e condenar o inocente são duas coisas detestáveis para o Senhor” (Pv 17.15).

 

3.    Do Novo Testamento

·   O apóstolo Paulo escreveu: "Pois não há autoridade senão de Deus, e os que existem são constituídos por Deus" (Rm 13.1-2). Os cristãos podem ter certeza de que Deus está no controle, mesmo sobre a política de qualquer país e qualquer época em que vivam.

·   Com esta garantia, os cristãos não têm de abordar a política com medo ou desespero. Em vez disso, podemos manter a promessa de Romanos 8.28: "Para os que amam a Deus, todas as coisas trabalham juntas para o bem, isto é, para os que são chamados segundo o Seu propósito".

·   Os cristãos devem ver a política à luz do nosso papel como administradores dos dons de Deus. Jesus ensinou este conceito com a parábola dos talentos em Mateus 25.14-30:

“Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens. E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe. E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos. Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois. Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles. Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles. E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos. Disse-lhe o seu senhor: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado. Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes”.

·   Lucas 12.48 explica: "Todo aquele a quem foi dado muito, muito lhe será exigido". Fazem parte disso os direitos e responsabilidades concedidos pelos cidadãos. Teremos de ser responsabilizados pelas nossas ações, incluindo a forma como participamos na política. Os cristãos nunca devem defender políticas que sejam claramente antibíblicas.

·   Primeira Coríntios 10.31 dá uma regra fundamental para participar no processo político: "seja lá o que fizer [do], faça tudo para a glória de Deus". Alguns cristãos se abstêm da política para concentrar sua energia na disseminação do evangelho. Outros cristãos estão muito envolvidos na política e até concorrem a cargos políticos. No entanto, outros cristãos escolhem um caminho intermediário, nem abstendo-se completamente da política nem concorrendo às eleições, mas tentando manter-se informados e votando de acordo com as suas convicções.

·   Todos os cristãos são chamados a rezar (orar) pelos seus líderes (1 Timóteo 2.1-6).:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; Pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade; Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, Que quer que todos os homens sejam salvos, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo”.

·   Pedro e João foram enfáticos, afirmando que sua principal prioridade era obedecer a Deus: “Porém, respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

4.    Implicações para hoje

Os cartazes "vote em", os anúncios do YouTube, os discursos... tão certo quanto tordos[2] e narcisos[3] anunciam a primavera, os cartazes, anúncios e discursos anunciam a temporada política. Dependendo do nível de envolvimento político, você silenciará anúncios ou gravará discursos. Como cristãos, como devemos abordar a política? Em primeiro lugar, não devemos preocupar-nos excessivamente com o resultado de uma eleição. Deus é soberano sobre todos, portanto, independentemente de quem ganhe, Deus providenciou isso dessa forma. No entanto, os cidadãos dos Estados Unidos da América têm um privilégio único que os de outros países não têm: participar no processo político mudará o curso da nação. Em segundo lugar, todos os cristãos fazem parte da família de Deus, por isso não devemos permitir que a participação política nos separe. Irritar-se com uma tia porque ela não quer colocar a placa do seu candidato favorito no seu jardim ou parar de falar com um primo porque ela não vai votar é colocar a política à frente comunhão cristã. No entanto, ficar completamente fora da política também pode não ser a melhor decisão. Deus nos tornou administradores do que nos abençoou, incluindo o país em que vivemos. É ingénuo pensar que as decisões políticas não afetam a nossa vida cristã. Questões morais como o aborto e o "casamento" entre pessoas do mesmo sexo são importantes. Portanto, embora não exista um mandato bíblico para votar e saibamos que Deus vence aconteça o que acontecer, os crentes devem promover a justiça na sua participação política. Finalmente, em nossa política, como em qualquer outra faceta de nossas vidas, devemos dar glória a Deus: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10.31).

Em resumo: Os cristãos são chamados a respeitar e orar pelas autoridades governantes como líderes nomeados por Deus, participando da política sem comprometer a verdade bíblica. Seja ativa ou discretamente, nossa participação política deve honrar a Deus, promover a justiça e refletir a administração fiel dos papéis que Ele nos confiou.

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Notas: 

[1] COMPELLINGTRUTH. “¿Cuál es la visión cristiana de la política?”. Disponível em: <https://www.compellingtruth.org/Espanol/politica-cristiano.html >. Acesso em: 18/09/2026. 

[2] Tordo: ave pertencente ao género Turdus, natural da Europa, Norte de África, Médio Oriente e Sibéria, que tem como símbolo a “Voz do Povo”, e que ecoa no silêncio e uma faísca de liberdade.

[3] Narcisos: flores ornamentais conhecidas por suas pétalas brancas ou amarelas e forte simbolismo ligado ao renascimento. Planta originária da região do Mediterrâneo, Ásia central e China. Possue folhas verde-intensas e alongadas, com flores que possuem pétalas externas e uma estrutura central em formato de trombeta ou coroa. Representam renovação, esperança e recomeços, mas também remetem à lenda mitológica de Narciso.

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7 de setembro de 2026

William Wilberforce: fé, política e a luta pela dignidade humana

Por: Alcides Amorim

“No século XVIII, a Inglaterra detinha o o monopólio do comércio de escravos negros. Os meios de transporte eram os mais cruéis imagináveis. Boa parte da população inglesa tirava proveito desse comércio, e o povo, de maneira geral, aceitava a escravidão... Mas Deus graciosamente ergueu uma geração de políticos cristãos para lutar contra o que William Carey chamou de ‘maldito comércio de escravos’...” [1]

William Wilberforce (1759-1833) [2]

Ao escrever o artigo Cidadãos do Céu, Eleitores na Terra: a política sob a cosmovisão cristã, uma das questões que procurei considerar foi a responsabilidade do cristão diante da vida pública. Afinal, se a fé cristã alcança todas as dimensões da existência humana, seria difícil sustentar que a política devesse constituir uma espécie de território neutro, onde as convicções cristãs precisassem ser deixadas do lado de fora. Mas como isso pode acontecer concretamente? Como um cristão pode participar da vida política sem transformar sua fé em instrumento de disputa partidária e, ao mesmo tempo, sem abrir mão dos princípios que sua consciência cristã lhe impõe?

Foi durante uma breve pesquisa relacionada àquele artigo que me deparei com a figura de William Wilberforce, parlamentar inglês do século XVIII. Confesso que, até então, sua história me era pouco conhecida. E entendi, então, que sua trajetória merecia um artigo próprio. Sua conversão ao cristianismo evangélico, sua permanência na vida política, sua luta persistente contra o tráfico de escravizados e sua compreensão da fé como fundamento para a vida pública constituem um interessante exemplo histórico de como a convicção cristã pode ultrapassar os limites da experiência individual e produzir consequências na sociedade. Não se trata, evidentemente, de transportar para o Brasil do século XXI as circunstâncias da Inglaterra de dois séculos atrás, mas de perguntar o que sua história pode nos ensinar sobre fé, vocação, política e responsabilidade cristã.

William Wilberforce viveu numa Inglaterra marcada por profundas contradições. De um lado, o século XVIII testemunhava o crescimento econômico, a expansão comercial e marítima do Império Britânico, o desenvolvimento das cidades e o fortalecimento da influência britânica no mundo. De outro, essa prosperidade estava ligada, em parte, a um sistema colonial que incluía o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a exploração econômica das colônias. Açúcar, tabaco e outros produtos provenientes das possessões britânicas chegavam à metrópole alimentando hábitos de consumo e interesses comerciais, enquanto milhares de homens, mulheres   crianças eram arrancados de sua terra, transportados em condições desumanas e reduzidos à condição de mercadoria.

Era também uma época de grandes transformações intelectuais e políticas. O pensamento iluminista colocava em discussão antigas concepções de autoridade, sociedade e liberdade. Ao mesmo tempo, movimentos de renovação religiosa alcançavam setores da Igreja da Inglaterra. O chamado evangelicalismo inglês insistia na necessidade de uma fé pessoal, na centralidade das Escrituras, na conversão e numa vida cristã que produzisse frutos concretos na sociedade. Foi nesse ambiente contraditório que Wilberforce cresceu e iniciou sua carreira pública.

Nascido em Hull, em 1759, pertencente a uma família abastada, filho único de Robert e Elizabeth Wilberforce, William recebeu boa educação e ingressou na Universidade de Cambridge. Ali estabeleceu amizade com William Pitt, que posteriormente se tornaria primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Jovem, inteligente, eloquente e dotado de grande habilidade política, Wilberforce foi eleito para o Parlamento em 1780, aos 21 anos. A política parecia ser seu caminho natural. Entretanto, naquele momento, sua vida religiosa (cristã) ainda estava longe de possuir a profundidade que posteriormente a caracterizaria.

A mudança decisiva ocorreu alguns anos depois. Entre 1784 e 1785, Wilberforce passou por uma profunda experiência de conversão. Ele já era formalmente membro da Igreja da Inglaterra, mas sua fé havia sido, até então, em grande medida uma questão nominal e social. O encontro com o cristianismo evangélico, a leitura das Escrituras e, particularmente, sua proximidade com John Newton – antigo capitão de navio negreiro que havia se tornado pastor anglicano e autor do conhecido hino Amazing Grace – contribuíram para transformar radicalmente sua compreensão da fé cristã. Além da proximidade com o autor do hino Amazing Grace, Wilberforce, segundo FERREIRA (pág. 310), teve proximidade com Philip Doddridge, que escreveu o conhecido hino “Oh Happy Day” [3].   

Wilberforce passou a enxergar sua própria vida à luz da eternidade. Sua conversão trouxe-lhe inclusive uma crise de consciência em relação à carreira política. Por algum tempo, chegou a considerar a possibilidade de abandonar o Parlamento, imaginando que a vida política fosse incompatível com uma existência verdadeiramente cristã. Foi nesse período que John Newton teve importante participação ao encorajá-lo a permanecer onde estava. Em vez de abandonar sua vocação pública, Wilberforce deveria procurar exercê-la sob o senhorio de Cristo.

Essa compreensão seria decisiva para o restante de sua vida. Wilberforce não deixou a política para viver sua fé; levou sua fé para dentro da política. A conversão não o transformou num político menos interessado nos assuntos públicos, mas num político que passou a enxergar esses assuntos sob uma nova perspectiva moral e espiritual.

Foi nesse contexto que a questão da escravidão começou a ocupar lugar central em sua atuação. O tráfico de africanos escravizados era uma atividade profundamente enraizada nos interesses econômicos britânicos. Combatê-lo significava enfrentar comerciantes, proprietários, interesses coloniais e setores influentes da própria sociedade. Não se tratava, portanto, de uma causa simples, capaz de ser resolvida por uma votação isolada.

Wilberforce encontrou aliados importantes. Thomas Clarkson dedicou-se à investigação e à divulgação das atrocidades do tráfico; John Newton utilizou sua própria experiência para testemunhar contra o sistema que anteriormente ajudara a sustentar; Hannah More empregou sua produção literária e sua influência social; e outros cristãos evangélicos formaram uma rede de mobilização que alcançava igrejas, escritores, parlamentares e a população em geral.

Wilberforce tornou-se a principal voz parlamentar dessa campanha. Em 1789, apresentou ao Parlamento um dos seus primeiros grandes discursos contra o tráfico, procurando demonstrar que aquela prática era moralmente indefensável. A reação, entretanto, foi muito mais difícil do que talvez se pudesse imaginar. Vieram adiamentos, derrotas, resistências e argumentos econômicos. A causa abolicionista precisou enfrentar não apenas adversários políticos, mas também uma cultura que havia se acostumado a considerar normal aquilo que, à luz dos princípios cristãos e da própria ideia de dignidade humana, era profundamente injusto.

Durante anos, Wilberforce insistiu. Derrota após derrota, continuou retornando ao Parlamento. Sua trajetória demonstra que grandes mudanças sociais raramente acontecem de maneira instantânea. Algumas exigem convicção, organização, argumentação, mobilização e, sobretudo, perseverança.

Finalmente, em 1807, depois de aproximadamente duas décadas de luta, o Parlamento britânico aprovou a legislação que aboliu o tráfico de escravos no Império Britânico. É importante fazer aqui uma distinção histórica: a lei de 1807 não significou a imediata emancipação de todos os escravizados nas colônias britânicas. A escravidão propriamente dita seria abolida posteriormente, em 1833, pouco antes da morte de Wilberforce.

A vitória de 1807, contudo, não foi apenas resultado da atuação de um parlamentar. Ela foi fruto de um movimento que havia procurado modificar também a consciência da sociedade. A luta contra o tráfico esteve ligada a uma visão mais ampla de reforma moral e social. Wilberforce e seus companheiros compreendiam que uma sociedade não poderia ser verdadeiramente civilizada enquanto aceitasse a transformação de seres humanos em mercadoria.

Essa dimensão mais ampla de sua atuação é particularmente importante. Wilberforce não se limitou à questão da escravidão. Participou de iniciativas relacionadas à educação, à reforma das condições sociais e à promoção dos valores cristãos. O movimento evangélico ao qual estava ligado procurou atuar em diferentes áreas da sociedade. A fé, para Wilberforce, não deveria permanecer confinada às paredes do templo. Ela deveria alcançar a vida pessoal, a cultura, os costumes e as instituições.

Nesse sentido, sua história oferece uma reflexão especialmente relevante para o conservadorismo cristão de nossos dias. Wilberforce demonstra que a participação política do cristão não precisa significar a transformação da fé em ideologia partidária. Tampouco exige que o cristão abandone suas convicções religiosas para ser considerado um cidadão responsável. Ao contrário: sua atuação pública foi profundamente influenciada por sua compreensão cristã do ser humano, da moralidade e da responsabilidade diante de Deus.

Há aqui uma lição que merece ser considerada. O conservadorismo cristão não pode ser reduzido à defesa de determinadas pautas políticas, à preservação de interesses econômicos ou à identificação com um partido. Se pretende conservar aquilo que merece ser conservado, precisa também perguntar pelos fundamentos morais que tornam possível uma sociedade justa.

Wilberforce viveu numa sociedade que possuía instituições, leis, tradições e uma economia vigorosa, mas que tolerava uma grave injustiça. Sua postura mostra que conservar nem sempre significa simplesmente manter o estado de coisas existente. Há momentos em que a fidelidade aos princípios exige reforma. E há situações em que a defesa da dignidade humana exige enfrentar interesses poderosos, mesmo quando esses interesses estão profundamente incorporados à estrutura social.

Isso não significa transformar Wilberforce em um personagem político brasileiro do século XXI. Os contextos são diferentes, os problemas são diferentes e as circunstâncias históricas não podem ser simplesmente transportadas de uma época para outra. A lição está nos princípios.

O cristão que participa da vida pública precisa cultivar convicções, mas também prudência; precisa defender valores, mas sem transformar o adversário político em inimigo absoluto; precisa compreender que a política é importante, mas não é o Reino de Deus; precisa reconhecer a autoridade das instituições, mas também lembrar que nenhuma autoridade humana está acima da verdade e da justiça.

Wilberforce também ensina a importância da perseverança. Foram necessários muitos anos para que uma causa que parecia quase impossível alcançasse uma vitória concreta. Num tempo em que a política frequentemente é marcada pela ansiedade, pela polarização e pela expectativa de resultados imediatos, sua trajetória recorda que algumas batalhas precisam ser travadas durante anos antes que seus frutos possam ser percebidos.

Talvez esteja aí uma das maiores contribuições de sua história para o conservadorismo cristão brasileiro: a política não deve ser o lugar onde o cristão abandona sua consciência; deve ser um dos lugares onde sua consciência cristã é exercida com responsabilidade.

Wilberforce não foi perfeito, nem sua época pode ser idealizada. Mas sua vida demonstra que a fé cristã pode produzir consequências concretas na esfera pública quando está associada à convicção, à coragem e à perseverança. Ele compreendeu que possuir poder político não era um fim em si mesmo. A política era uma vocação — e uma vocação deveria ser exercida diante de Deus.

Por isso, sua história permanece atual. Não porque devamos procurar no século XVIII respostas prontas para os problemas do Brasil de hoje, mas porque a pergunta fundamental continua sendo a mesma: o que significa viver a fé cristã quando se tem responsabilidade diante da sociedade?

A resposta de Wilberforce foi dada não apenas em palavras, mas em décadas de trabalho, derrotas e perseverança. Ele entrou no Parlamento como jovem político. Saiu dele tendo ajudado a mudar a história de seu país.

E talvez essa seja a grande lição: a fé genuína não retira necessariamente o cristão da praça pública; ela pode levá-lo a entrar nela com uma consciência renovada, sabendo que, acima dos interesses políticos, existem princípios pelos quais vale a pena lutar.

Veja também:

Notas:

  • [1] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da Igreja. São José dos Campos/SP: Fiel, 2014, pág.309. Outras fontes acerca de Wilberforce, foram filtradas, via I. A. CHATGPT: históricas institucionais do Parlamento Britânico, e acadêmicas e biográficas, extraídas da Oxford Academic... Acesso em: 03/09/2026.

  • [2] WILBERFORCE, William. Pintura à Óleo, de John Rising, 1790. National Portrait Gallery.
  • [3] Philip Doddridge (1702–1751) foi pastor e escritor inglês, além de autor de numerosos hinos. Entre eles está “O Happy Day, That Fixed My Choice”, posteriormente conhecido, em versões adaptadas, como “Oh Happy Day”. Sua obra The Rise and Progress of Religion in the Soul, publicada originalmente em 1745, exerceu grande influência na espiritualidade evangélica inglesa e foi lida por William Wilberforce juntamente com seu amigo Isaac Milner.

1 de setembro de 2026

Cidadãos do Céu, Eleitores na Terra: a política sob a cosmovisão cristã

 Por: Alcides Amorim 

A relação entre a fé cristã e a esfera política frequentemente oscila entre o isolamento alienado e o ativismo ideológico, mas uma análise bíblica e histórica revela um caminho de engajamento consciente e responsável. Ao contrário do que defende uma visão dualista radical [1], a política não deve ser classificada como uma atividade intrinsecamente diabólica, no sentido de ser ela uma esfera de corrupção inevitável, mentira e dominação, ligadas às forças do mal ou à matéria inferior. Embora o pecado corrompa as estruturas de poder e o mundo jazigo no maligno (1Jo 5.19), a autoridade civil e a busca pela justiça social são esferas instituídas por Deus para a preservação da ordem e a contenção do mal na Criação. Portanto, a política é uma atividade terrena legítima, corrompida apenas pela má conduta humana. Como o “coração do homem é enganoso” (Jr 17.9), a prática política demanda valores éticos para a sua redenção.

Diante do cenário político de seu país ou região, a posição do cristão deve ser a de um cidadão exemplar, pautado pelo discernimento e pelo serviço ao próximo. O fiel é chamado a interceder pelas autoridades (1Tm 2.2), fiscalizar os governantes e exercer seus direitos cívicos – como o voto – com base nos princípios bíblicos da justiça, da verdade e da dignidade humana. Essa postura ativa encontra perfeito eco nas trajetórias de grandes personagens bíblicos que ocuparam altos cargos públicos em impérios pagãos. Por exemplo:

·  José governou o Egito salvando nações da fome: "E de todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José; porquanto a fome prevalecia em todas as terras" (Gn 41.57).;

·  Daniel atuou na corte babilônica e não se contaminou. Veja este texto: “Então os presidentes e os príncipes procuravam achar ocasião contra Daniel a respeito do reino; mas não podiam achar ocasião nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa" (Dn 6.4).

·  Neemias trabalhou na corte persa com integridade inabalável. Ele chegou a dizer: "... desde o dia em que fui nomeado seu governador [de Artaxerxes I] na terra de Judá... nem eu nem meus irmãos comemos o pão devido ao governador" (Ne 5.14).

No Novo Testamento, Nicodemos e José de Arimateia (João 19.38-40) que também eram políticos, usaram suas influências no Sinédrio judeu para apoiar o ministério e o sepultamento de Jesus. Todos eles demonstram que é possível exercer a atividade política de seus dias com fidelidade a Deus, transformando seus ambientes de poder em locais de testemunho e preservação da vida.

Essa atuação terrena, contudo, não anula a realidade espiritual de que a pátria definitiva do cristão está nos céus. O princípio bíblico de que “nossa cidade está nos céus” (Fp 3.20) deve ser entendido não como um convite à passividade ou ao abandono do mundo, mas sim como uma definição de prioridades e de identidade. O cristão atua como sal da terra (Mt 5.13) sabendo que nenhum partido, ideologia ou sistema de governo humano é perfeito ou capaz de trazer a salvação plena. A cidadania celestial – como já mencionamos neste artigo [2] – serve como uma bússola moral: ela impede que o crente idolatre o Estado ou se curve a agendas corrompidas, funcionando como um farol crítico que avalia a política terrena à luz dos valores eternos do Reino de Deus.

A história da igreja confirma a viabilidade e a necessidade desse equilíbrio por meio de diversos políticos cristãos que marcaram a humanidade.

·  William Wilberforce (1759-1833), convertido ao anglicanismo em 1785, no Reino Unido, dedicou sua carreira parlamentar à abolição da escravidão, movido por uma profunda convicção evangélica de igualdade humana.

·  Abraham Lincoln (1809-1865), nos Estados Unidos, embora tenha mantido um perfil religioso reservado, sem nenhuma afiliação confessional formal, liderou o país em tempos de guerra civil fundamentando seus discursos na soberania e na justiça divina.

·  Martin Luther King Jr. (1929-1968), como pastor e líder político dos direitos civis, usou os preceitos do Evangelho para combater a segregação racial de forma pacífica. Assim, o cristão na política cumpre o seu papel quando compreende que sua missão terrena é uma extensão de sua fidelidade celestial, agindo como sal e luz nas estruturas sociais.

Cabe, então, uma reflexão sobre nossa participação como cristãos e cidadãos brasileiros em ano eleitoral.

No cenário brasileiro contemporâneo, especialmente no período que antecede as eleições, a cosmovisão cristã enfrenta o seu teste mais prático e urgente. O eleitorado do país – majoritariamente composto por católicos e evangélicos [3] – encontra-se no centro de uma disputa narrativa feroz. Partidos e candidatos de diferentes espectros políticos tentam, frequentemente, instrumentalizar a fé e os símbolos religiosos para angariar votos, transformando púlpitos e altares em palcos de debates partidários. Diante desse bombardeio de informações, o cristão brasileiro é desafiado a romper com a polarização cega que tenta dividir a nação apenas entre "santos e demônios", esquecendo-se de que a linha que separa o bem do mal corta o coração de todo ser humano, e não as legendas partidárias.

A polarização ideológica funciona como uma armadilha espiritual e intelectual. Ela cega o indivíduo, fazendo-o defender erros graves de seu candidato de preferência simplesmente por medo ou aversão ao espectro oposto. Para o cristão com convicções conservadoras, o voto não pode ser um ato de idolatria política, tampouco uma reação pautada pelo ódio ou pelo medo generalizado. O voto consciente, sob a ótica do Reino de Deus, exige um profundo discernimento ético. Significa entender que nenhum partido político humano encarna perfeitamente o Evangelho de Cristo. Portanto, a escolha de um representante deve ser baseada em uma análise criteriosa de seu histórico, de seu caráter individual, de sua honestidade e de seu compromisso real com a justiça e a verdade, e não apenas em discursos inflamados que usam o nome de Deus em vão para inflamar multidões.

Exercer o voto consciente no Brasil de hoje é compreender que, embora nossa pátria definitiva esteja nos céus, o nosso endereço temporário é aqui. Isso nos impõe a responsabilidade de buscar o bem da nossa comunidade por meio das ferramentas democráticas disponíveis. Quando o cristão entra na cabine de votação livre das amarras do extremismo ideológico, ele recupera a sua liberdade de ser uma voz profética. Ele se recusa a se curvar a agendas corrompidas, venham de onde vierem, e assume o papel de pacificador em uma sociedade fraturada. As urnas passarão e os governos mudarão, mas o compromisso do cristão com a verdade de Cristo e com o amor ao próximo deve permanecer inabalável, servindo de luz e equilíbrio em tempos de profunda divisão nacional.

Veja também:

·        A democracia é uma forma cristã de governo?

·        As Duas Cidades: Igreja, Estado e a Ética Cristã na Vida Pública.

·        Fé, cultura e razão... à venda no Clube de Autores.

·        Nossa cidadania está nos céus.


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Notas:

  • [1] A visão dualista radical, ou dualismo de substância, afirma que a mente (ou alma) e o corpo (ou matéria) formam duas partes totalmente separadas e diferentes. A mente pensa, mas não tem peso ou tamanho físico. O corpo é físico, mas não pensa.

  • [3] Destaquei no meu livro Fé, cultura e razão: fundamentos éticos da cosmovisão protestante (Cap. 4, pág. 107): “Conforme dados do I.B.G.E. (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), atualizados em 2025, mas com cálculos apurados de 2022, no Brasil há aproximadamente 56,7% de católicos ou um total de cerca de 100,2 milhões, e de protestantes (evangélicos) ou 26,9% ou cerca de 47,4 milhões, sem considerar outros grupos de cristãos”.

24 de agosto de 2026

Bispos e Papas (21): Lúcio I

 
Bispo Lúcio I (imagem ilustrativa)

Sobre a nossa lista de bispos e papas romanos já vimos:

001) Bispo Lino (67 a 76).                             002) Bispo Anacleto (76 a 88).

003) Bispo Clemente (88 a 97).                     004) Bispo Evaristo (97 a 105).

005) Bispo Alexandre I (106 a 116).             006) Bispo Sixto I (117-? a 126-?).

007) Bispo Telésforo (125 a 138).                 008) Bispo Higino (138 a 142).

009) Bispo Pio (142 a 155).                           010) Bispo Aniceto (154 a 166).

011) Bispo Sotero (166 a 174/5.                    012) Bispo Eleutero (175 e 189).

013) Bispo Vitor I (189 a 199).                     014) Bispo Zeferino (199 a 217).

015) Bispo Calisto I (217 a 222).                  016) Bispos Urbano I (222 a 230).

017) Bispo Ponciano (230 a 235).                 018) Bispo Antero (235 a 236).

019) Bispo Fabiano (200-250).                     020) Bispo Cornélio (251-253).

O Bispo Cornélio, “que exerceu o episcopado em torno de três anos...” foi sucedido por Lúcio, que ocupa o 21° lugar da lista.

O episcopado do Bispo Lúcio ou Lúcio I [1], foi extremamente breve: aproximadamente de junho ou julho de 253 até 5 de março de 254. Apesar da curta duração de seu ministério, Lúcio ocupou uma posição importante num dos períodos mais delicados da Igreja do século III, marcado tanto pelas perseguições do Império Romano quanto pelas controvérsias internas provocadas pela questão dos cristãos que haviam abandonado a fé durante a perseguição de Décio.

A escassez das fontes torna difícil reconstruir sua vida pessoal. Ainda assim, sua trajetória como bispo de Roma pode ser compreendida dentro de um contexto bastante conhecido: a Igreja procurava reorganizar-se depois da perseguição de Décio, enquanto enfrentava o cisma liderado por Novaciano e precisava definir como deveria tratar aqueles que, tendo negado a fé durante a perseguição, desejavam retornar à comunhão cristã.

1. Origem e primeiros anos

Pouco se sabe sobre Lúcio antes de sua eleição para o episcopado romano. Segundo o Liber Pontificalis[2], ele nasceu em Roma e era filho de um homem chamado Porfírio (Porphyrius). Não possuímos, porém, informações confiáveis sobre sua mãe, irmãos, condição social, profissão ou formação anterior ao episcopado.

O que podemos afirmar com segurança é que Lúcio pertencia à comunidade cristã de Roma e, após a morte de Cornélio, foi escolhido para sucedê-lo. A cronologia tradicional situa seu início no episcopado romano no verão de 253. Eusébio (H.E., Livro VII, Cap. II) afirma que ele “... viveu em seu ministério algo menos que oito meses”.

2. Roma e o contexto histórico

Lúcio assumiu o episcopado em uma época de grande instabilidade política e religiosa no Império Romano.

Poucos anos antes, havia promovido uma perseguição que atingiu duramente as comunidades cristãs. O problema não consistia simplesmente em prender alguns líderes da Igreja. A política imperial procurava levar os habitantes do Império a participar de atos públicos de sacrifício aos deuses tradicionais, como expressão de lealdade ao Estado e às tradições religiosas romanas.

Para os cristãos, a exigência representava um grave conflito de consciência. Muitos permaneceram fiéis à fé e sofreram prisão, exílio ou morte. Outros, entretanto, cederam diante das autoridades. Alguns chegaram a oferecer sacrifícios; outros procuraram obter documentos que comprovassem sua participação, sem necessariamente terem realizado pessoalmente o ato exigido.

Depois que a perseguição diminuiu, surgiu um problema que teria profundas consequências para a Igreja: o que fazer com aqueles cristãos que haviam caído, mas agora estavam arrependidos e desejavam retornar à comunhão?

A questão dos lapsi — literalmente, os "caídos" — tornou-se uma das maiores controvérsias disciplinares e eclesiológicas do cristianismo do século III.

A situação política continuava instável. O imperador Treboniano Galo[3] sucedera Décio e também adotara medidas contra os cristãos. Foi durante esse período que Cornélio, predecessor de Lúcio, havia sido enviado ao exílio. Quando Lúcio assumiu o episcopado, a pressão contra a Igreja romana ainda não havia desaparecido.

3. O problema dos lapsi

Para compreender Lúcio, é necessário retornar brevemente à controvérsia que havia marcado o episcopado de Cornélio.

A perseguição de Décio havia produzido uma situação pastoral extremamente difícil. Alguns cristãos que haviam negado a fé procuravam retornar à Igreja. A questão era saber se a Igreja poderia recebê-los novamente e, em caso afirmativo, sob quais condições.

Uma parte dos cristãos defendia a possibilidade de restauração depois de um período de arrependimento e penitência. Outra corrente adotava uma posição muito mais rigorosa e entendia que determinados pecados graves, especialmente a apostasia, não poderiam ser perdoados pela Igreja.

A questão não era meramente administrativa. Envolvia uma compreensão mais profunda da natureza da Igreja, da penitência, do perdão dos pecados e da autoridade dos bispos para readmitir os penitentes à comunhão.

Foi nesse ambiente que surgiu a controvérsia envolvendo Novaciano.

4. Novaciano e o cisma em Roma

Novaciano era presbítero da Igreja de Roma e havia adquirido grande influência durante a crise provocada pela perseguição. Inicialmente, sua posição em relação aos lapsi não parece ter sido tão rigorosa, mas posteriormente tornou-se um dos principais defensores da rejeição de sua readmissão à Igreja.

Quando Cornélio foi eleito bispo de Roma, em 251, Novaciano e seus partidários recusaram-se a reconhecer sua eleição e promoveram a escolha de Novaciano como bispo rival.

Assim nasceu o chamado cisma novacianista.

O ponto central da controvérsia estava no tratamento dos cristãos que haviam apostatado durante a perseguição. Novaciano defendia uma posição rigorista, enquanto Cornélio, apoiado por outros bispos, defendia a possibilidade de reconciliação dos penitentes.

Eusébio, ao narrar os acontecimentos, apresenta a questão dos lapsi como a causa imediata da crise que dividiu a Igreja de Roma. Segundo seu relato, alguns defendiam a readmissão dos penitentes mediante determinadas formas de penitência, enquanto outros sustentavam sua exclusão. O conflito acabou levando à eleição de Novaciano como bispo rival de Cornélio.

É importante, entretanto, fazer uma distinção histórica: o novacianismo não deve ser apresentado simplesmente como uma "heresia" no mesmo sentido em que posteriormente seriam classificadas controvérsias cristológicas ou trinitárias. Sua origem esteve principalmente numa controvérsia disciplinar e eclesiológica, embora tenha adquirido também implicações teológicas relacionadas ao pecado, ao arrependimento e à capacidade da Igreja de conceder reconciliação.

Essa distinção é importante porque ajuda a compreender melhor o ambiente doutrinário do episcopado de Lúcio.

5. Lúcio assume o episcopado de Roma

Após a morte de Cornélio, Lúcio foi escolhido para ocupar a sede episcopal de Roma.

Sua eleição representava, em certo sentido, a continuidade da orientação adotada por Cornélio. Lúcio não procurou reabrir a questão dos lapsi nem alterar a posição que vinha sendo defendida pela Igreja romana.

Pouco depois de sua eleição, entretanto, Lúcio foi enviado ao exílio. A documentação disponível relaciona seu exílio à perseguição ocorrida sob Treboniano Galo. Posteriormente, com a mudança de governo e a ascensão de Valeriano, Lúcio pôde retornar a Roma. A correspondência de Cipriano de Cartago é uma das principais fontes para esse episódio.

O retorno de Lúcio é significativo porque mostra que seu episcopado não se limitou às questões internas da comunidade romana. Ele próprio experimentou as consequências da política imperial contra os cristãos.

Cipriano o saudou como alguém que havia sofrido por causa da fé e considerou seu retorno motivo de alegria para toda a comunidade. A relação epistolar entre as igrejas de Roma e Cartago, já importante no período de Cornélio, continuava, portanto, durante o episcopado de Lúcio.

6. Lúcio e a questão da restauração dos lapsi

Embora seu episcopado tenha durado poucos meses, Lúcio manteve a orientação de seu predecessor em relação aos cristãos que haviam caído durante a perseguição.

A evidência mais importante encontra-se posteriormente numa carta de Cipriano, na qual ele afirma que Cornélio e Lúcio haviam sustentado por escrito que os lapsi, depois de cumprirem a penitência, não deveriam ser privados da reconciliação e da comunhão da Igreja.

Esse dado é particularmente importante.

Lúcio não aparece simplesmente como um bispo que administrou a Igreja romana durante alguns meses. Ele participou da definição de uma questão que envolvia um dos problemas pastorais mais difíceis enfrentados pelo cristianismo antigo: até onde deveria ir a disciplina da Igreja e até onde deveria alcançar a possibilidade de restauração do pecador arrependido?

A posição romana representava uma tentativa de manter juntas duas verdades: a gravidade da apostasia e a realidade do arrependimento.

A Igreja não deveria tratar a apostasia como algo irrelevante, mas também não deveria considerar irreversível a queda daquele que se arrependesse sinceramente e cumprisse a penitência estabelecida.

Essa posição contribuiu para a rejeição do rigorismo novacianista e para a preservação da unidade da Igreja romana.

7. A Igreja de Roma e sua posição no século III

O episcopado de Lúcio também permite observar o papel que a Igreja de Roma já exercia no cristianismo do século III.

Roma não estava isolada das demais comunidades cristãs. Pelo contrário, mantinha relações de correspondência e comunhão com outras igrejas, e seus conflitos internos repercutiam além de seus limites.

Ao mesmo tempo, é importante evitar uma leitura anacrônica. A autoridade do bispo de Roma no século III não deve ser descrita simplesmente nos termos da estrutura do papado que se desenvolveria muitos séculos depois.

O que encontramos nesse período é uma Igreja romana de grande prestígio, cujo bispo mantinha relações com outros bispos e cuja posição sobre questões de disciplina e comunhão era acompanhada com atenção por outras comunidades.

O próprio conflito com Novaciano mostra a importância atribuída à sucessão episcopal e à unidade em torno do bispo. A disputa não era apenas sobre uma questão moral; envolvia também a pergunta sobre quem possuía legitimidade para ocupar a sede de Roma e representar sua Igreja.

Nesse sentido, o episcopado de Lúcio pertence a uma etapa importante da história da formação da autoridade episcopal na Igreja antiga.

8. Morte de Lúcio I

Lúcio morreu em Roma em 5 de março de 254. Essa data é preservada por antigos registros da Igreja romana, incluindo a Depositio episcoporum, documento associado ao chamado Cronógrafo de 354.

Foi sepultado no cemitério de Calisto, em Roma, onde uma inscrição relacionada à sua memória foi posteriormente identificada.

Existe, porém, uma questão importante em relação à tradição de seu martírio.

Fontes posteriores passaram a apresentar Lúcio como mártir. Entretanto, os dados históricos mais antigos não sustentam de maneira convincente essa afirmação. A documentação indica que Lúcio foi exilado e depois retornou a Roma; a correspondência de Cipriano também permite perceber que ele ainda estava vivo após seu retorno. Há evidências de que morreu de morte natural, e não durante uma perseguição.

A própria tradição antiga parece ter preservado uma memória mais complexa: Lúcio foi honrado como confessor da fé por causa do exílio e do sofrimento que suportou, mas isso não significa necessariamente que tenha morrido como mártir.

Essa distinção é importante para uma abordagem histórica da série: sofrer perseguição e ser exilado não significa necessariamente ter sido martirizado.

9. Um episcopado breve, mas significativo

O episcopado de Lúcio I durou menos de um ano, mas ocorreu num momento decisivo para a Igreja de Roma.

Ele recebeu uma comunidade ainda marcada pela perseguição de Décio, pela controvérsia dos lapsi e pelo cisma de Novaciano. Foi exilado, retornou a Roma e manteve a orientação de Cornélio quanto à reconciliação dos cristãos arrependidos.

Sua importância histórica está, portanto, menos na quantidade de acontecimentos ocorridos durante seu pontificado e mais na continuidade de uma posição eclesial.

Ao lado de Cornélio, Lúcio representa uma Igreja que procurava preservar sua unidade sem abandonar a disciplina cristã. A penitência era necessária, mas o arrependimento poderia conduzir novamente à comunhão. O rigorismo novacianista, por sua vez, acabaria formando uma comunidade separada.

A trajetória de Lúcio mostra também uma Igreja de Roma ainda inserida nas complexas relações entre as diversas comunidades cristãs do Império. Seu episcopado não pode ser compreendido isoladamente: fazia parte de uma rede de igrejas, bispos, correspondências, conflitos e decisões que contribuíram para a formação da Igreja antiga.

Conclusão

Lúcio I foi bispo de Roma por poucos meses, entre 253 e 254, mas seu episcopado se insere em uma fase particularmente importante da história do cristianismo.

Romano de nascimento, filho de Porfírio segundo a tradição do Liber Pontificalis, pouco sabemos sobre sua vida anterior ao episcopado. Sabemos, entretanto, que assumiu a sede romana num período marcado pelas consequências da perseguição de Décio e pela divisão provocada pelo cisma novacianista.

Sua atuação esteve ligada à continuidade da política de Cornélio: os cristãos que haviam caído durante a perseguição, mas que se arrependessem e cumprissem a penitência, poderiam ser novamente recebidos na comunhão da Igreja.

Dessa forma, Lúcio participou de uma questão que ultrapassava a simples disciplina eclesiástica. Estava em jogo a compreensão da Igreja sobre pecado, arrependimento, penitência, perdão e comunhão.

Seu breve episcopado também testemunha as dificuldades enfrentadas pelos cristãos diante do poder imperial. Exilado e posteriormente autorizado a retornar a Roma, Lúcio experimentou pessoalmente a tensão entre a fidelidade cristã e as exigências do Estado romano.

Morreu em 254 e foi posteriormente venerado como santo. A tradição de seu martírio, contudo, deve ser tratada com cautela, pois as fontes históricas mais antigas não permitem afirmar com segurança que tenha morrido pela espada ou por execução.

Lúcio I permanece, assim, como uma figura discreta, mas significativa na história da Igreja romana: um bispo de pontificado breve, situado entre a perseguição do Império, o rigorismo novacianista e o esforço da Igreja para preservar, ao mesmo tempo, a santidade de sua disciplina e a possibilidade da restauração do pecador arrependido.


Notas:

  • [1] Conteúdo elaborado e adaptado a partir de fontes filtradas por I.A. Chatgpt, em 12/08/2026.

  • [2] O Liber Pontificalis (Livro dos Pontífices) “... é uma célebre crônica medieval em latim que contém as biografias dos papas da Igreja Católica, desde São Pedro até o século XV. A obra registra dados sobre eleições, decretos litúrgicos, construções de basílicas e doações, sendo essencial para o estudo da história papal e de Roma”. Veja mais em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Liber_Pontificalis>. Acesso em: 10/08/2026.

  • [3] Treboniano Galo reinou entre 251 e 253 (ou 254) na época da ‘anarquia militar’, tendo-se destacado pelos seus dotes de armas. Serviu o imperador Trajano Décio como general, que lhe confiou a superior missão estratégica de suster as violentas e devastadoras incursões que os Godos faziam na Trácia, região a nordeste da Grécia, entre 248 e 251. Depois da morte do imperador Décio no campo de batalha, no ano de 251, Treboniano logo foi aclamado imperador pelas legiões. Veja mais em: <https://www.infopedia.pt/artigos/$treboniano-galo>. Acesso em: 12/08/2026.