Por: Alcides Amorim
“No século XVIII, a Inglaterra detinha o o monopólio do comércio de escravos negros. Os meios de transporte eram os mais cruéis imagináveis. Boa parte da população inglesa tirava proveito desse comércio, e o povo, de maneira geral, aceitava a escravidão... Mas Deus graciosamente ergueu uma geração de políticos cristãos para lutar contra o que William Carey chamou de ‘maldito comércio de escravos’...” [1]
Ao escrever o artigo Cidadãos
do Céu, Eleitores na Terra: a política sob a cosmovisão cristã, uma
das questões que procurei considerar foi a responsabilidade do cristão diante
da vida pública. Afinal, se a fé cristã alcança todas as dimensões da
existência humana, seria difícil sustentar que a política devesse constituir
uma espécie de território neutro, onde as convicções cristãs precisassem ser
deixadas do lado de fora. Mas como isso pode acontecer concretamente? Como um
cristão pode participar da vida política sem transformar sua fé em instrumento
de disputa partidária e, ao mesmo tempo, sem abrir mão dos princípios que sua
consciência cristã lhe impõe?
Foi durante uma breve pesquisa relacionada
àquele artigo que me deparei com a figura de William Wilberforce,
parlamentar inglês do século XVIII. Confesso que, até então, sua história me
era pouco conhecida. E entendi, então, que sua trajetória merecia um artigo
próprio. Sua conversão ao cristianismo evangélico, sua permanência na vida política,
sua luta persistente contra o tráfico de escravizados e sua compreensão da fé
como fundamento para a vida pública constituem um interessante exemplo
histórico de como a convicção cristã pode ultrapassar os limites da experiência
individual e produzir consequências na sociedade. Não se trata, evidentemente,
de transportar para o Brasil do século XXI as circunstâncias da Inglaterra de
dois séculos atrás, mas de perguntar o que sua história pode nos ensinar sobre
fé, vocação, política e responsabilidade cristã.
William Wilberforce viveu numa Inglaterra
marcada por profundas contradições. De um lado, o século XVIII testemunhava o
crescimento econômico, a expansão comercial e marítima do Império Britânico, o
desenvolvimento das cidades e o fortalecimento da influência britânica no
mundo. De outro, essa prosperidade estava ligada, em parte, a um sistema
colonial que incluía o tráfico transatlântico de africanos escravizados
e a exploração econômica das colônias. Açúcar, tabaco e outros produtos
provenientes das possessões britânicas chegavam à metrópole alimentando hábitos
de consumo e interesses comerciais, enquanto milhares de homens, mulheres crianças eram arrancados de sua terra,
transportados em condições desumanas e reduzidos à condição de mercadoria.
Era também uma época de grandes transformações
intelectuais e políticas. O pensamento iluminista colocava em
discussão antigas concepções de autoridade, sociedade e liberdade. Ao mesmo
tempo, movimentos de renovação religiosa alcançavam setores da
Igreja da Inglaterra. O chamado evangelicalismo inglês insistia na
necessidade de uma fé pessoal, na centralidade das Escrituras, na conversão e
numa vida cristã que produzisse frutos concretos na sociedade. Foi nesse
ambiente contraditório que Wilberforce cresceu e iniciou sua carreira pública.
Nascido em Hull, em 1759, pertencente a uma
família abastada, filho único de Robert e Elizabeth Wilberforce, William
recebeu boa educação e ingressou na Universidade de Cambridge. Ali estabeleceu
amizade com William Pitt, que posteriormente se tornaria primeiro-ministro da
Grã-Bretanha. Jovem, inteligente, eloquente e dotado de grande habilidade
política, Wilberforce foi eleito para o Parlamento em 1780, aos 21 anos. A
política parecia ser seu caminho natural. Entretanto, naquele momento, sua vida
religiosa (cristã) ainda estava longe de possuir a profundidade que
posteriormente a caracterizaria.
A mudança decisiva ocorreu alguns anos depois.
Entre 1784 e 1785, Wilberforce passou por uma profunda experiência de conversão.
Ele já era formalmente membro da Igreja da Inglaterra, mas sua fé havia sido,
até então, em grande medida uma questão nominal e social. O encontro com o
cristianismo evangélico, a leitura das Escrituras e, particularmente, sua
proximidade com John Newton – antigo capitão de navio negreiro
que havia se tornado pastor anglicano e autor do conhecido hino Amazing
Grace – contribuíram para transformar radicalmente sua compreensão da fé
cristã. Além da proximidade com o autor do hino Amazing Grace, Wilberforce,
segundo FERREIRA (pág. 310), teve proximidade com Philip Doddridge, que
escreveu o conhecido hino “Oh Happy Day” [3].
Wilberforce passou a enxergar sua própria vida
à luz da eternidade. Sua conversão trouxe-lhe inclusive uma crise de
consciência em relação à carreira política. Por algum tempo, chegou a
considerar a possibilidade de abandonar o Parlamento, imaginando que a vida
política fosse incompatível com uma existência verdadeiramente cristã. Foi
nesse período que John Newton teve importante participação ao encorajá-lo a
permanecer onde estava. Em vez de abandonar sua vocação pública, Wilberforce
deveria procurar exercê-la sob o senhorio de Cristo.
Essa compreensão seria decisiva para o restante
de sua vida. Wilberforce não deixou a política para viver sua fé; levou sua
fé para dentro da política. A conversão não o transformou num político
menos interessado nos assuntos públicos, mas num político que passou a enxergar
esses assuntos sob uma nova perspectiva moral e espiritual.
Foi nesse contexto que a questão da escravidão
começou a ocupar lugar central em sua atuação. O tráfico de africanos
escravizados era uma atividade profundamente enraizada nos interesses
econômicos britânicos. Combatê-lo significava enfrentar comerciantes,
proprietários, interesses coloniais e setores influentes da própria sociedade.
Não se tratava, portanto, de uma causa simples, capaz de ser resolvida por uma
votação isolada.
Wilberforce encontrou aliados importantes.
Thomas Clarkson dedicou-se à investigação e à divulgação das atrocidades do
tráfico; John Newton utilizou sua própria experiência para testemunhar contra o
sistema que anteriormente ajudara a sustentar; Hannah More empregou sua
produção literária e sua influência social; e outros cristãos evangélicos
formaram uma rede de mobilização que alcançava igrejas, escritores,
parlamentares e a população em geral.
Wilberforce tornou-se a principal voz
parlamentar dessa campanha. Em 1789, apresentou ao Parlamento um dos seus
primeiros grandes discursos contra o tráfico, procurando demonstrar que aquela
prática era moralmente indefensável. A reação, entretanto, foi muito mais
difícil do que talvez se pudesse imaginar. Vieram adiamentos, derrotas,
resistências e argumentos econômicos. A causa abolicionista precisou enfrentar
não apenas adversários políticos, mas também uma cultura que havia se
acostumado a considerar normal aquilo que, à luz dos princípios cristãos e da
própria ideia de dignidade humana, era profundamente injusto.
Durante anos, Wilberforce insistiu. Derrota
após derrota, continuou retornando ao Parlamento. Sua trajetória demonstra que
grandes mudanças sociais raramente acontecem de maneira instantânea. Algumas
exigem convicção, organização, argumentação, mobilização e, sobretudo,
perseverança.
Finalmente, em 1807, depois de
aproximadamente duas décadas de luta, o Parlamento britânico aprovou a
legislação que aboliu o tráfico de escravos no Império
Britânico. É importante fazer aqui uma distinção histórica: a lei de 1807 não
significou a imediata emancipação de todos os escravizados nas colônias
britânicas. A escravidão propriamente dita seria abolida posteriormente,
em 1833, pouco antes da morte de Wilberforce.
A vitória de 1807, contudo, não foi apenas
resultado da atuação de um parlamentar. Ela foi fruto de um movimento que havia
procurado modificar também a consciência da sociedade. A luta contra o tráfico
esteve ligada a uma visão mais ampla de reforma moral e social. Wilberforce e
seus companheiros compreendiam que uma sociedade não poderia ser
verdadeiramente civilizada enquanto aceitasse a transformação de seres humanos
em mercadoria.
Essa dimensão mais ampla de sua atuação é
particularmente importante. Wilberforce não se limitou à questão da escravidão.
Participou de iniciativas relacionadas à educação, à reforma das condições
sociais e à promoção dos valores cristãos. O movimento evangélico ao qual
estava ligado procurou atuar em diferentes áreas da sociedade. A fé, para
Wilberforce, não deveria permanecer confinada às paredes do templo. Ela deveria
alcançar a vida pessoal, a cultura, os costumes e as instituições.
Nesse sentido, sua história oferece uma
reflexão especialmente relevante para o conservadorismo cristão
de nossos dias. Wilberforce demonstra que a participação política do cristão
não precisa significar a transformação da fé em ideologia partidária. Tampouco
exige que o cristão abandone suas convicções religiosas para ser considerado um
cidadão responsável. Ao contrário: sua atuação pública foi profundamente
influenciada por sua compreensão cristã do ser humano, da moralidade e da
responsabilidade diante de Deus.
Há aqui uma lição que merece ser considerada. O
conservadorismo cristão não pode ser reduzido à defesa de determinadas pautas
políticas, à preservação de interesses econômicos ou à identificação com um
partido. Se pretende conservar aquilo que merece ser conservado, precisa
também perguntar pelos fundamentos morais que tornam possível uma sociedade
justa.
Wilberforce viveu numa sociedade que possuía
instituições, leis, tradições e uma economia vigorosa, mas que tolerava uma
grave injustiça. Sua postura mostra que conservar nem sempre significa
simplesmente manter o estado de coisas existente. Há momentos em que a
fidelidade aos princípios exige reforma. E há situações em que a defesa da
dignidade humana exige enfrentar interesses poderosos, mesmo quando esses
interesses estão profundamente incorporados à estrutura social.
Isso não significa transformar Wilberforce em
um personagem político brasileiro do século XXI. Os contextos são diferentes,
os problemas são diferentes e as circunstâncias históricas não podem ser
simplesmente transportadas de uma época para outra. A lição está nos princípios.
O cristão que participa da vida pública precisa
cultivar convicções, mas também prudência; precisa defender valores, mas sem
transformar o adversário político em inimigo absoluto; precisa compreender que
a política é importante, mas não é o Reino de Deus; precisa reconhecer a
autoridade das instituições, mas também lembrar que nenhuma autoridade humana
está acima da verdade e da justiça.
Wilberforce também ensina a importância da perseverança. Foram
necessários muitos anos para que uma causa que parecia quase impossível
alcançasse uma vitória concreta. Num tempo em que a política frequentemente é
marcada pela ansiedade, pela polarização e pela expectativa de resultados
imediatos, sua trajetória recorda que algumas batalhas precisam ser travadas
durante anos antes que seus frutos possam ser percebidos.
Talvez esteja aí uma das maiores contribuições
de sua história para o conservadorismo cristão brasileiro: a política não
deve ser o lugar onde o cristão abandona sua consciência; deve ser um dos
lugares onde sua consciência cristã é exercida com responsabilidade.
Wilberforce não foi perfeito, nem sua época
pode ser idealizada. Mas sua vida demonstra que a fé cristã pode produzir
consequências concretas na esfera pública quando está associada à convicção, à
coragem e à perseverança. Ele compreendeu que possuir poder político não era um
fim em si mesmo. A política era uma vocação — e uma vocação deveria ser
exercida diante de Deus.
Por isso, sua história permanece atual. Não
porque devamos procurar no século XVIII respostas prontas para os problemas do
Brasil de hoje, mas porque a pergunta fundamental continua sendo a mesma: o
que significa viver a fé cristã quando se tem responsabilidade diante da
sociedade?
A resposta de Wilberforce foi dada não apenas
em palavras, mas em décadas de trabalho, derrotas e perseverança. Ele entrou no
Parlamento como jovem político. Saiu dele tendo ajudado a mudar a história de
seu país.
E talvez essa seja a grande lição: a fé genuína
não retira necessariamente o cristão da praça pública; ela pode levá-lo a
entrar nela com uma consciência renovada, sabendo que, acima dos interesses
políticos, existem princípios pelos quais vale a pena lutar.
Veja também:
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Notas:
- [1] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da Igreja. São José dos Campos/SP: Fiel, 2014, pág.309. Outras fontes acerca de Wilberforce, foram filtradas, via I. A. CHATGPT: históricas institucionais do Parlamento Britânico, e acadêmicas e biográficas, extraídas da Oxford Academic... Acesso em: 03/09/2026.
- [2] WILBERFORCE, William. Pintura
à Óleo, de John Rising, 1790. National Portrait Gallery.
- [3] Philip Doddridge (1702–1751) foi pastor e
escritor inglês, além de autor de numerosos hinos. Entre eles
está “O Happy Day, That Fixed My Choice”, posteriormente conhecido, em
versões adaptadas, como “Oh Happy Day”. Sua obra The Rise and Progress of
Religion in the Soul, publicada originalmente em 1745, exerceu grande
influência na espiritualidade evangélica inglesa e foi lida por William
Wilberforce juntamente com seu amigo Isaac Milner.