Blog do Amorim: História da Igreja

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7 de setembro de 2026

William Wilberforce: fé, política e a luta pela dignidade humana

Por: Alcides Amorim

“No século XVIII, a Inglaterra detinha o o monopólio do comércio de escravos negros. Os meios de transporte eram os mais cruéis imagináveis. Boa parte da população inglesa tirava proveito desse comércio, e o povo, de maneira geral, aceitava a escravidão... Mas Deus graciosamente ergueu uma geração de políticos cristãos para lutar contra o que William Carey chamou de ‘maldito comércio de escravos’...” [1]

William Wilberforce (1759-1833) [2]

Ao escrever o artigo Cidadãos do Céu, Eleitores na Terra: a política sob a cosmovisão cristã, uma das questões que procurei considerar foi a responsabilidade do cristão diante da vida pública. Afinal, se a fé cristã alcança todas as dimensões da existência humana, seria difícil sustentar que a política devesse constituir uma espécie de território neutro, onde as convicções cristãs precisassem ser deixadas do lado de fora. Mas como isso pode acontecer concretamente? Como um cristão pode participar da vida política sem transformar sua fé em instrumento de disputa partidária e, ao mesmo tempo, sem abrir mão dos princípios que sua consciência cristã lhe impõe?

Foi durante uma breve pesquisa relacionada àquele artigo que me deparei com a figura de William Wilberforce, parlamentar inglês do século XVIII. Confesso que, até então, sua história me era pouco conhecida. E entendi, então, que sua trajetória merecia um artigo próprio. Sua conversão ao cristianismo evangélico, sua permanência na vida política, sua luta persistente contra o tráfico de escravizados e sua compreensão da fé como fundamento para a vida pública constituem um interessante exemplo histórico de como a convicção cristã pode ultrapassar os limites da experiência individual e produzir consequências na sociedade. Não se trata, evidentemente, de transportar para o Brasil do século XXI as circunstâncias da Inglaterra de dois séculos atrás, mas de perguntar o que sua história pode nos ensinar sobre fé, vocação, política e responsabilidade cristã.

William Wilberforce viveu numa Inglaterra marcada por profundas contradições. De um lado, o século XVIII testemunhava o crescimento econômico, a expansão comercial e marítima do Império Britânico, o desenvolvimento das cidades e o fortalecimento da influência britânica no mundo. De outro, essa prosperidade estava ligada, em parte, a um sistema colonial que incluía o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a exploração econômica das colônias. Açúcar, tabaco e outros produtos provenientes das possessões britânicas chegavam à metrópole alimentando hábitos de consumo e interesses comerciais, enquanto milhares de homens, mulheres   crianças eram arrancados de sua terra, transportados em condições desumanas e reduzidos à condição de mercadoria.

Era também uma época de grandes transformações intelectuais e políticas. O pensamento iluminista colocava em discussão antigas concepções de autoridade, sociedade e liberdade. Ao mesmo tempo, movimentos de renovação religiosa alcançavam setores da Igreja da Inglaterra. O chamado evangelicalismo inglês insistia na necessidade de uma fé pessoal, na centralidade das Escrituras, na conversão e numa vida cristã que produzisse frutos concretos na sociedade. Foi nesse ambiente contraditório que Wilberforce cresceu e iniciou sua carreira pública.

Nascido em Hull, em 1759, pertencente a uma família abastada, filho único de Robert e Elizabeth Wilberforce, William recebeu boa educação e ingressou na Universidade de Cambridge. Ali estabeleceu amizade com William Pitt, que posteriormente se tornaria primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Jovem, inteligente, eloquente e dotado de grande habilidade política, Wilberforce foi eleito para o Parlamento em 1780, aos 21 anos. A política parecia ser seu caminho natural. Entretanto, naquele momento, sua vida religiosa (cristã) ainda estava longe de possuir a profundidade que posteriormente a caracterizaria.

A mudança decisiva ocorreu alguns anos depois. Entre 1784 e 1785, Wilberforce passou por uma profunda experiência de conversão. Ele já era formalmente membro da Igreja da Inglaterra, mas sua fé havia sido, até então, em grande medida uma questão nominal e social. O encontro com o cristianismo evangélico, a leitura das Escrituras e, particularmente, sua proximidade com John Newton – antigo capitão de navio negreiro que havia se tornado pastor anglicano e autor do conhecido hino Amazing Grace – contribuíram para transformar radicalmente sua compreensão da fé cristã. Além da proximidade com o autor do hino Amazing Grace, Wilberforce, segundo FERREIRA (pág. 310), teve proximidade com Philip Doddridge, que escreveu o conhecido hino “Oh Happy Day” [3].   

Wilberforce passou a enxergar sua própria vida à luz da eternidade. Sua conversão trouxe-lhe inclusive uma crise de consciência em relação à carreira política. Por algum tempo, chegou a considerar a possibilidade de abandonar o Parlamento, imaginando que a vida política fosse incompatível com uma existência verdadeiramente cristã. Foi nesse período que John Newton teve importante participação ao encorajá-lo a permanecer onde estava. Em vez de abandonar sua vocação pública, Wilberforce deveria procurar exercê-la sob o senhorio de Cristo.

Essa compreensão seria decisiva para o restante de sua vida. Wilberforce não deixou a política para viver sua fé; levou sua fé para dentro da política. A conversão não o transformou num político menos interessado nos assuntos públicos, mas num político que passou a enxergar esses assuntos sob uma nova perspectiva moral e espiritual.

Foi nesse contexto que a questão da escravidão começou a ocupar lugar central em sua atuação. O tráfico de africanos escravizados era uma atividade profundamente enraizada nos interesses econômicos britânicos. Combatê-lo significava enfrentar comerciantes, proprietários, interesses coloniais e setores influentes da própria sociedade. Não se tratava, portanto, de uma causa simples, capaz de ser resolvida por uma votação isolada.

Wilberforce encontrou aliados importantes. Thomas Clarkson dedicou-se à investigação e à divulgação das atrocidades do tráfico; John Newton utilizou sua própria experiência para testemunhar contra o sistema que anteriormente ajudara a sustentar; Hannah More empregou sua produção literária e sua influência social; e outros cristãos evangélicos formaram uma rede de mobilização que alcançava igrejas, escritores, parlamentares e a população em geral.

Wilberforce tornou-se a principal voz parlamentar dessa campanha. Em 1789, apresentou ao Parlamento um dos seus primeiros grandes discursos contra o tráfico, procurando demonstrar que aquela prática era moralmente indefensável. A reação, entretanto, foi muito mais difícil do que talvez se pudesse imaginar. Vieram adiamentos, derrotas, resistências e argumentos econômicos. A causa abolicionista precisou enfrentar não apenas adversários políticos, mas também uma cultura que havia se acostumado a considerar normal aquilo que, à luz dos princípios cristãos e da própria ideia de dignidade humana, era profundamente injusto.

Durante anos, Wilberforce insistiu. Derrota após derrota, continuou retornando ao Parlamento. Sua trajetória demonstra que grandes mudanças sociais raramente acontecem de maneira instantânea. Algumas exigem convicção, organização, argumentação, mobilização e, sobretudo, perseverança.

Finalmente, em 1807, depois de aproximadamente duas décadas de luta, o Parlamento britânico aprovou a legislação que aboliu o tráfico de escravos no Império Britânico. É importante fazer aqui uma distinção histórica: a lei de 1807 não significou a imediata emancipação de todos os escravizados nas colônias britânicas. A escravidão propriamente dita seria abolida posteriormente, em 1833, pouco antes da morte de Wilberforce.

A vitória de 1807, contudo, não foi apenas resultado da atuação de um parlamentar. Ela foi fruto de um movimento que havia procurado modificar também a consciência da sociedade. A luta contra o tráfico esteve ligada a uma visão mais ampla de reforma moral e social. Wilberforce e seus companheiros compreendiam que uma sociedade não poderia ser verdadeiramente civilizada enquanto aceitasse a transformação de seres humanos em mercadoria.

Essa dimensão mais ampla de sua atuação é particularmente importante. Wilberforce não se limitou à questão da escravidão. Participou de iniciativas relacionadas à educação, à reforma das condições sociais e à promoção dos valores cristãos. O movimento evangélico ao qual estava ligado procurou atuar em diferentes áreas da sociedade. A fé, para Wilberforce, não deveria permanecer confinada às paredes do templo. Ela deveria alcançar a vida pessoal, a cultura, os costumes e as instituições.

Nesse sentido, sua história oferece uma reflexão especialmente relevante para o conservadorismo cristão de nossos dias. Wilberforce demonstra que a participação política do cristão não precisa significar a transformação da fé em ideologia partidária. Tampouco exige que o cristão abandone suas convicções religiosas para ser considerado um cidadão responsável. Ao contrário: sua atuação pública foi profundamente influenciada por sua compreensão cristã do ser humano, da moralidade e da responsabilidade diante de Deus.

Há aqui uma lição que merece ser considerada. O conservadorismo cristão não pode ser reduzido à defesa de determinadas pautas políticas, à preservação de interesses econômicos ou à identificação com um partido. Se pretende conservar aquilo que merece ser conservado, precisa também perguntar pelos fundamentos morais que tornam possível uma sociedade justa.

Wilberforce viveu numa sociedade que possuía instituições, leis, tradições e uma economia vigorosa, mas que tolerava uma grave injustiça. Sua postura mostra que conservar nem sempre significa simplesmente manter o estado de coisas existente. Há momentos em que a fidelidade aos princípios exige reforma. E há situações em que a defesa da dignidade humana exige enfrentar interesses poderosos, mesmo quando esses interesses estão profundamente incorporados à estrutura social.

Isso não significa transformar Wilberforce em um personagem político brasileiro do século XXI. Os contextos são diferentes, os problemas são diferentes e as circunstâncias históricas não podem ser simplesmente transportadas de uma época para outra. A lição está nos princípios.

O cristão que participa da vida pública precisa cultivar convicções, mas também prudência; precisa defender valores, mas sem transformar o adversário político em inimigo absoluto; precisa compreender que a política é importante, mas não é o Reino de Deus; precisa reconhecer a autoridade das instituições, mas também lembrar que nenhuma autoridade humana está acima da verdade e da justiça.

Wilberforce também ensina a importância da perseverança. Foram necessários muitos anos para que uma causa que parecia quase impossível alcançasse uma vitória concreta. Num tempo em que a política frequentemente é marcada pela ansiedade, pela polarização e pela expectativa de resultados imediatos, sua trajetória recorda que algumas batalhas precisam ser travadas durante anos antes que seus frutos possam ser percebidos.

Talvez esteja aí uma das maiores contribuições de sua história para o conservadorismo cristão brasileiro: a política não deve ser o lugar onde o cristão abandona sua consciência; deve ser um dos lugares onde sua consciência cristã é exercida com responsabilidade.

Wilberforce não foi perfeito, nem sua época pode ser idealizada. Mas sua vida demonstra que a fé cristã pode produzir consequências concretas na esfera pública quando está associada à convicção, à coragem e à perseverança. Ele compreendeu que possuir poder político não era um fim em si mesmo. A política era uma vocação — e uma vocação deveria ser exercida diante de Deus.

Por isso, sua história permanece atual. Não porque devamos procurar no século XVIII respostas prontas para os problemas do Brasil de hoje, mas porque a pergunta fundamental continua sendo a mesma: o que significa viver a fé cristã quando se tem responsabilidade diante da sociedade?

A resposta de Wilberforce foi dada não apenas em palavras, mas em décadas de trabalho, derrotas e perseverança. Ele entrou no Parlamento como jovem político. Saiu dele tendo ajudado a mudar a história de seu país.

E talvez essa seja a grande lição: a fé genuína não retira necessariamente o cristão da praça pública; ela pode levá-lo a entrar nela com uma consciência renovada, sabendo que, acima dos interesses políticos, existem princípios pelos quais vale a pena lutar.

Veja também:

Notas:

  • [1] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da Igreja. São José dos Campos/SP: Fiel, 2014, pág.309. Outras fontes acerca de Wilberforce, foram filtradas, via I. A. CHATGPT: históricas institucionais do Parlamento Britânico, e acadêmicas e biográficas, extraídas da Oxford Academic... Acesso em: 03/09/2026.

  • [2] WILBERFORCE, William. Pintura à Óleo, de John Rising, 1790. National Portrait Gallery.
  • [3] Philip Doddridge (1702–1751) foi pastor e escritor inglês, além de autor de numerosos hinos. Entre eles está “O Happy Day, That Fixed My Choice”, posteriormente conhecido, em versões adaptadas, como “Oh Happy Day”. Sua obra The Rise and Progress of Religion in the Soul, publicada originalmente em 1745, exerceu grande influência na espiritualidade evangélica inglesa e foi lida por William Wilberforce juntamente com seu amigo Isaac Milner.

24 de agosto de 2026

Bispos e Papas (21): Lúcio I

 
Bispo Lúcio I (imagem ilustrativa)

Sobre a nossa lista de bispos e papas romanos já vimos:

001) Bispo Lino (67 a 76).                             002) Bispo Anacleto (76 a 88).

003) Bispo Clemente (88 a 97).                     004) Bispo Evaristo (97 a 105).

005) Bispo Alexandre I (106 a 116).             006) Bispo Sixto I (117-? a 126-?).

007) Bispo Telésforo (125 a 138).                 008) Bispo Higino (138 a 142).

009) Bispo Pio (142 a 155).                           010) Bispo Aniceto (154 a 166).

011) Bispo Sotero (166 a 174/5.                    012) Bispo Eleutero (175 e 189).

013) Bispo Vitor I (189 a 199).                     014) Bispo Zeferino (199 a 217).

015) Bispo Calisto I (217 a 222).                  016) Bispos Urbano I (222 a 230).

017) Bispo Ponciano (230 a 235).                 018) Bispo Antero (235 a 236).

019) Bispo Fabiano (200-250).                     020) Bispo Cornélio (251-253).

O Bispo Cornélio, “que exerceu o episcopado em torno de três anos...” foi sucedido por Lúcio, que ocupa o 21° lugar da lista.

O episcopado do Bispo Lúcio ou Lúcio I [1], foi extremamente breve: aproximadamente de junho ou julho de 253 até 5 de março de 254. Apesar da curta duração de seu ministério, Lúcio ocupou uma posição importante num dos períodos mais delicados da Igreja do século III, marcado tanto pelas perseguições do Império Romano quanto pelas controvérsias internas provocadas pela questão dos cristãos que haviam abandonado a fé durante a perseguição de Décio.

A escassez das fontes torna difícil reconstruir sua vida pessoal. Ainda assim, sua trajetória como bispo de Roma pode ser compreendida dentro de um contexto bastante conhecido: a Igreja procurava reorganizar-se depois da perseguição de Décio, enquanto enfrentava o cisma liderado por Novaciano e precisava definir como deveria tratar aqueles que, tendo negado a fé durante a perseguição, desejavam retornar à comunhão cristã.

1. Origem e primeiros anos

Pouco se sabe sobre Lúcio antes de sua eleição para o episcopado romano. Segundo o Liber Pontificalis[2], ele nasceu em Roma e era filho de um homem chamado Porfírio (Porphyrius). Não possuímos, porém, informações confiáveis sobre sua mãe, irmãos, condição social, profissão ou formação anterior ao episcopado.

O que podemos afirmar com segurança é que Lúcio pertencia à comunidade cristã de Roma e, após a morte de Cornélio, foi escolhido para sucedê-lo. A cronologia tradicional situa seu início no episcopado romano no verão de 253. Eusébio (H.E., Livro VII, Cap. II) afirma que ele “... viveu em seu ministério algo menos que oito meses”.

2. Roma e o contexto histórico

Lúcio assumiu o episcopado em uma época de grande instabilidade política e religiosa no Império Romano.

Poucos anos antes, havia promovido uma perseguição que atingiu duramente as comunidades cristãs. O problema não consistia simplesmente em prender alguns líderes da Igreja. A política imperial procurava levar os habitantes do Império a participar de atos públicos de sacrifício aos deuses tradicionais, como expressão de lealdade ao Estado e às tradições religiosas romanas.

Para os cristãos, a exigência representava um grave conflito de consciência. Muitos permaneceram fiéis à fé e sofreram prisão, exílio ou morte. Outros, entretanto, cederam diante das autoridades. Alguns chegaram a oferecer sacrifícios; outros procuraram obter documentos que comprovassem sua participação, sem necessariamente terem realizado pessoalmente o ato exigido.

Depois que a perseguição diminuiu, surgiu um problema que teria profundas consequências para a Igreja: o que fazer com aqueles cristãos que haviam caído, mas agora estavam arrependidos e desejavam retornar à comunhão?

A questão dos lapsi — literalmente, os "caídos" — tornou-se uma das maiores controvérsias disciplinares e eclesiológicas do cristianismo do século III.

A situação política continuava instável. O imperador Treboniano Galo[3] sucedera Décio e também adotara medidas contra os cristãos. Foi durante esse período que Cornélio, predecessor de Lúcio, havia sido enviado ao exílio. Quando Lúcio assumiu o episcopado, a pressão contra a Igreja romana ainda não havia desaparecido.

3. O problema dos lapsi

Para compreender Lúcio, é necessário retornar brevemente à controvérsia que havia marcado o episcopado de Cornélio.

A perseguição de Décio havia produzido uma situação pastoral extremamente difícil. Alguns cristãos que haviam negado a fé procuravam retornar à Igreja. A questão era saber se a Igreja poderia recebê-los novamente e, em caso afirmativo, sob quais condições.

Uma parte dos cristãos defendia a possibilidade de restauração depois de um período de arrependimento e penitência. Outra corrente adotava uma posição muito mais rigorosa e entendia que determinados pecados graves, especialmente a apostasia, não poderiam ser perdoados pela Igreja.

A questão não era meramente administrativa. Envolvia uma compreensão mais profunda da natureza da Igreja, da penitência, do perdão dos pecados e da autoridade dos bispos para readmitir os penitentes à comunhão.

Foi nesse ambiente que surgiu a controvérsia envolvendo Novaciano.

4. Novaciano e o cisma em Roma

Novaciano era presbítero da Igreja de Roma e havia adquirido grande influência durante a crise provocada pela perseguição. Inicialmente, sua posição em relação aos lapsi não parece ter sido tão rigorosa, mas posteriormente tornou-se um dos principais defensores da rejeição de sua readmissão à Igreja.

Quando Cornélio foi eleito bispo de Roma, em 251, Novaciano e seus partidários recusaram-se a reconhecer sua eleição e promoveram a escolha de Novaciano como bispo rival.

Assim nasceu o chamado cisma novacianista.

O ponto central da controvérsia estava no tratamento dos cristãos que haviam apostatado durante a perseguição. Novaciano defendia uma posição rigorista, enquanto Cornélio, apoiado por outros bispos, defendia a possibilidade de reconciliação dos penitentes.

Eusébio, ao narrar os acontecimentos, apresenta a questão dos lapsi como a causa imediata da crise que dividiu a Igreja de Roma. Segundo seu relato, alguns defendiam a readmissão dos penitentes mediante determinadas formas de penitência, enquanto outros sustentavam sua exclusão. O conflito acabou levando à eleição de Novaciano como bispo rival de Cornélio.

É importante, entretanto, fazer uma distinção histórica: o novacianismo não deve ser apresentado simplesmente como uma "heresia" no mesmo sentido em que posteriormente seriam classificadas controvérsias cristológicas ou trinitárias. Sua origem esteve principalmente numa controvérsia disciplinar e eclesiológica, embora tenha adquirido também implicações teológicas relacionadas ao pecado, ao arrependimento e à capacidade da Igreja de conceder reconciliação.

Essa distinção é importante porque ajuda a compreender melhor o ambiente doutrinário do episcopado de Lúcio.

5. Lúcio assume o episcopado de Roma

Após a morte de Cornélio, Lúcio foi escolhido para ocupar a sede episcopal de Roma.

Sua eleição representava, em certo sentido, a continuidade da orientação adotada por Cornélio. Lúcio não procurou reabrir a questão dos lapsi nem alterar a posição que vinha sendo defendida pela Igreja romana.

Pouco depois de sua eleição, entretanto, Lúcio foi enviado ao exílio. A documentação disponível relaciona seu exílio à perseguição ocorrida sob Treboniano Galo. Posteriormente, com a mudança de governo e a ascensão de Valeriano, Lúcio pôde retornar a Roma. A correspondência de Cipriano de Cartago é uma das principais fontes para esse episódio.

O retorno de Lúcio é significativo porque mostra que seu episcopado não se limitou às questões internas da comunidade romana. Ele próprio experimentou as consequências da política imperial contra os cristãos.

Cipriano o saudou como alguém que havia sofrido por causa da fé e considerou seu retorno motivo de alegria para toda a comunidade. A relação epistolar entre as igrejas de Roma e Cartago, já importante no período de Cornélio, continuava, portanto, durante o episcopado de Lúcio.

6. Lúcio e a questão da restauração dos lapsi

Embora seu episcopado tenha durado poucos meses, Lúcio manteve a orientação de seu predecessor em relação aos cristãos que haviam caído durante a perseguição.

A evidência mais importante encontra-se posteriormente numa carta de Cipriano, na qual ele afirma que Cornélio e Lúcio haviam sustentado por escrito que os lapsi, depois de cumprirem a penitência, não deveriam ser privados da reconciliação e da comunhão da Igreja.

Esse dado é particularmente importante.

Lúcio não aparece simplesmente como um bispo que administrou a Igreja romana durante alguns meses. Ele participou da definição de uma questão que envolvia um dos problemas pastorais mais difíceis enfrentados pelo cristianismo antigo: até onde deveria ir a disciplina da Igreja e até onde deveria alcançar a possibilidade de restauração do pecador arrependido?

A posição romana representava uma tentativa de manter juntas duas verdades: a gravidade da apostasia e a realidade do arrependimento.

A Igreja não deveria tratar a apostasia como algo irrelevante, mas também não deveria considerar irreversível a queda daquele que se arrependesse sinceramente e cumprisse a penitência estabelecida.

Essa posição contribuiu para a rejeição do rigorismo novacianista e para a preservação da unidade da Igreja romana.

7. A Igreja de Roma e sua posição no século III

O episcopado de Lúcio também permite observar o papel que a Igreja de Roma já exercia no cristianismo do século III.

Roma não estava isolada das demais comunidades cristãs. Pelo contrário, mantinha relações de correspondência e comunhão com outras igrejas, e seus conflitos internos repercutiam além de seus limites.

Ao mesmo tempo, é importante evitar uma leitura anacrônica. A autoridade do bispo de Roma no século III não deve ser descrita simplesmente nos termos da estrutura do papado que se desenvolveria muitos séculos depois.

O que encontramos nesse período é uma Igreja romana de grande prestígio, cujo bispo mantinha relações com outros bispos e cuja posição sobre questões de disciplina e comunhão era acompanhada com atenção por outras comunidades.

O próprio conflito com Novaciano mostra a importância atribuída à sucessão episcopal e à unidade em torno do bispo. A disputa não era apenas sobre uma questão moral; envolvia também a pergunta sobre quem possuía legitimidade para ocupar a sede de Roma e representar sua Igreja.

Nesse sentido, o episcopado de Lúcio pertence a uma etapa importante da história da formação da autoridade episcopal na Igreja antiga.

8. Morte de Lúcio I

Lúcio morreu em Roma em 5 de março de 254. Essa data é preservada por antigos registros da Igreja romana, incluindo a Depositio episcoporum, documento associado ao chamado Cronógrafo de 354.

Foi sepultado no cemitério de Calisto, em Roma, onde uma inscrição relacionada à sua memória foi posteriormente identificada.

Existe, porém, uma questão importante em relação à tradição de seu martírio.

Fontes posteriores passaram a apresentar Lúcio como mártir. Entretanto, os dados históricos mais antigos não sustentam de maneira convincente essa afirmação. A documentação indica que Lúcio foi exilado e depois retornou a Roma; a correspondência de Cipriano também permite perceber que ele ainda estava vivo após seu retorno. Há evidências de que morreu de morte natural, e não durante uma perseguição.

A própria tradição antiga parece ter preservado uma memória mais complexa: Lúcio foi honrado como confessor da fé por causa do exílio e do sofrimento que suportou, mas isso não significa necessariamente que tenha morrido como mártir.

Essa distinção é importante para uma abordagem histórica da série: sofrer perseguição e ser exilado não significa necessariamente ter sido martirizado.

9. Um episcopado breve, mas significativo

O episcopado de Lúcio I durou menos de um ano, mas ocorreu num momento decisivo para a Igreja de Roma.

Ele recebeu uma comunidade ainda marcada pela perseguição de Décio, pela controvérsia dos lapsi e pelo cisma de Novaciano. Foi exilado, retornou a Roma e manteve a orientação de Cornélio quanto à reconciliação dos cristãos arrependidos.

Sua importância histórica está, portanto, menos na quantidade de acontecimentos ocorridos durante seu pontificado e mais na continuidade de uma posição eclesial.

Ao lado de Cornélio, Lúcio representa uma Igreja que procurava preservar sua unidade sem abandonar a disciplina cristã. A penitência era necessária, mas o arrependimento poderia conduzir novamente à comunhão. O rigorismo novacianista, por sua vez, acabaria formando uma comunidade separada.

A trajetória de Lúcio mostra também uma Igreja de Roma ainda inserida nas complexas relações entre as diversas comunidades cristãs do Império. Seu episcopado não pode ser compreendido isoladamente: fazia parte de uma rede de igrejas, bispos, correspondências, conflitos e decisões que contribuíram para a formação da Igreja antiga.

Conclusão

Lúcio I foi bispo de Roma por poucos meses, entre 253 e 254, mas seu episcopado se insere em uma fase particularmente importante da história do cristianismo.

Romano de nascimento, filho de Porfírio segundo a tradição do Liber Pontificalis, pouco sabemos sobre sua vida anterior ao episcopado. Sabemos, entretanto, que assumiu a sede romana num período marcado pelas consequências da perseguição de Décio e pela divisão provocada pelo cisma novacianista.

Sua atuação esteve ligada à continuidade da política de Cornélio: os cristãos que haviam caído durante a perseguição, mas que se arrependessem e cumprissem a penitência, poderiam ser novamente recebidos na comunhão da Igreja.

Dessa forma, Lúcio participou de uma questão que ultrapassava a simples disciplina eclesiástica. Estava em jogo a compreensão da Igreja sobre pecado, arrependimento, penitência, perdão e comunhão.

Seu breve episcopado também testemunha as dificuldades enfrentadas pelos cristãos diante do poder imperial. Exilado e posteriormente autorizado a retornar a Roma, Lúcio experimentou pessoalmente a tensão entre a fidelidade cristã e as exigências do Estado romano.

Morreu em 254 e foi posteriormente venerado como santo. A tradição de seu martírio, contudo, deve ser tratada com cautela, pois as fontes históricas mais antigas não permitem afirmar com segurança que tenha morrido pela espada ou por execução.

Lúcio I permanece, assim, como uma figura discreta, mas significativa na história da Igreja romana: um bispo de pontificado breve, situado entre a perseguição do Império, o rigorismo novacianista e o esforço da Igreja para preservar, ao mesmo tempo, a santidade de sua disciplina e a possibilidade da restauração do pecador arrependido.


Notas:

  • [1] Conteúdo elaborado e adaptado a partir de fontes filtradas por I.A. Chatgpt, em 12/08/2026.

  • [2] O Liber Pontificalis (Livro dos Pontífices) “... é uma célebre crônica medieval em latim que contém as biografias dos papas da Igreja Católica, desde São Pedro até o século XV. A obra registra dados sobre eleições, decretos litúrgicos, construções de basílicas e doações, sendo essencial para o estudo da história papal e de Roma”. Veja mais em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Liber_Pontificalis>. Acesso em: 10/08/2026.

  • [3] Treboniano Galo reinou entre 251 e 253 (ou 254) na época da ‘anarquia militar’, tendo-se destacado pelos seus dotes de armas. Serviu o imperador Trajano Décio como general, que lhe confiou a superior missão estratégica de suster as violentas e devastadoras incursões que os Godos faziam na Trácia, região a nordeste da Grécia, entre 248 e 251. Depois da morte do imperador Décio no campo de batalha, no ano de 251, Treboniano logo foi aclamado imperador pelas legiões. Veja mais em: <https://www.infopedia.pt/artigos/$treboniano-galo>. Acesso em: 12/08/2026.

30 de junho de 2026

Bispos e Papas (20): Cornélio

 Por: Alcides Amorim 

Bispo Cornélio e Cipriano de Cartago [1]

Depois do bispo Fabiano, martirizado em 250, o próximo bispo de nossa lista (bispos e papas romanos), é Cornélio, que exerceu seu episcopado entre 251 e 253. Na lista dos papas católicos ele é 21º, considerando que Pedro, o apóstolo tenha sido o primeiro papa.   Eusébio de Cesareia, em História Eclesiástica (HE, 6, XXXIX) [2], diz que durante a violenta perseguição do imperador Décio aos cristãos, o bispo Fabiano foi martirizado “... e foi sucedido por Cornélio como bispo de Roma”. E no livro 7, II, ele afirma que “... Cornélio exerceu o episcopado em torno de três anos...” sendo sucedido por Lúcio.

Acho importante destacar aqui o contexto histórico da época do pontificado de Cornélio e sua relação com a perseguição sob o imperador Décio e o Novacionismo.

No ano 249, Décio cingiu-se com a púrpura imperial. Embora os historiadores cristãos tenham caracterizado como personagem cruel, Décio era simplesmente um romano de feitio antigo e um homem disposto a restaurar a velha glória de Roma. Por diversas razões, essa glória parecia estar perdendo o seu brilho. Os bárbaros além das fronteiras se mostravam cada vez mais inquietos e mais atrevidos em suas incursões dentro dos domínios do Império. A economia do império estava em crise. E as velhas tradições caíam cada vez mais em desuso.
Para um romano tradicional, era claro que uma das razões pelas quais tudo isto sucedia, era que o povo havia abandonado o culto de seus deuses. Quando todos adoravam os deuses, as coisas pareciam caminhar muito melhor e a glória e o poder de Roma eram cada vez maiores. Em consequência, era possível pensar que o que estava sucedendo era que, desde que Roma estava retirando o seu culto, os deuses por sua vez estavam retirando seu favor ao velho Império. Nesse caso, uma das medidas que se impunha no intento de restaurar a velha glória de Roma era a restauração dos velhos cultos. Se todos os súditos do Império voltassem a adorar os deuses, possivelmente os deuses voltariam a favorecer o Império.
Esta foi a principal razão da política religiosa de Décio. Não se tratava já dos velhos rumores acerca das práticas nefandas dos cristãos, nem da necessidade de castigar sua obstinação, mas se tratava, antes, de uma campanha religiosa que buscava a restauração dos velhos cultos. Em última análise, o que estava em jogo era a sobrevivência da velha Roma dos Césares, com suas glórias e seus deuses. Tudo o que se opunha a isto era falta de patriotismo e alta traição [3].

Em 250 [4], o imperador romano Décio emitiu um edito exigindo que todos os cidadãos do Império realizassem sacrifícios aos deuses tradicionais. O objetivo político do imperador era restaurar a unidade religiosa romana, forçando os cristãos a abdicarem de sua fé sob pena de severa punição.

Como consequência dessa intensa perseguição, muitos cristãos cederam à pressão e sacrificaram aos deuses para salvar suas vidas ou subornaram autoridades para obter certificados de que o haviam feito. Esses cristãos que renegaram a fé sob coerção ficaram conhecidos historicamente como lapsi (os "caídos").

Quando a perseguição diminuiu e a Igreja voltou a ter relativa paz, surgiu um grande dilema: o que fazer com os lapsi que desejavam retornar à comunhão e ao seio da Igreja? Essa questão gerou um acalorado debate entre os líderes cristãos da época.

Enquanto o clero debatia o perdão, o presbítero romano Novaciano assumiu uma postura extremista e rigorosa. Ele defendia que os apóstatas haviam cometido um pecado imperdoável perante os homens e que a Igreja não tinha o poder nem a autoridade para readmitir os lapsi de volta.

Em 251 d.C., Cornélio foi eleito e consagrado Bispo de Roma, adotando uma posição pastoral muito mais próxima à misericórdia. Ele liderou um sínodo que excomungou Novaciano e reafirmou que a Igreja possuía autoridade divina para perdoar e reconciliar os cristãos arrependidos, estabelecendo penitências adequadas.

A eleição de Cornélio e suas diretrizes misericordiosas levaram Novaciano a ordenar-se bispo rival, criando o primeiro cisma da história da Igreja. Assim, o episcopado de Cornélio ficou marcado pelo combate ao novacionismo e pela afirmação da Igreja como uma instituição universal, aberta a pecadores arrependidos.

Importante também ver a importância de Cipriano de Cartago para o episcopado de Cornélio em relação a solução da crise dos lapsi. Juntos, formularam uma via pastoral intermediária, estabelecendo que os pecadores arrependidos poderiam retornar à comunhão eclesial após cumprirem penitências proporcionais à gravidade de suas faltas.

O laço entre os dois líderes fortaleceu-se ainda mais por meio de cartas de encorajamento mútuo durante a nova onda de repressão sob o imperador Treboniano Galo. Quando Cornélio foi preso e enviado ao exílio, onde viria a falecer em 253 d.C., Cipriano o enalteceu publicamente, celebrando sua firmeza e declarando-o mártir da fé. Essa cooperação histórica não apenas superou as heresias da época, mas também consolidou os conceitos de colegialidade episcopal e de solidariedade entre as grandes sedes apostólicas.

O Bispo Cornélio foi martirizado? A resposta a esta pergunta, dada pelo Chatgpt [5] diz que a tradição cristã afirma que Cornélio, bispo de Roma (251–253), morreu durante a perseguição do imperador Galo, razão pela qual passou a ser venerado como mártir. Entretanto, há uma pequena nuance histórica.
Os testemunhos mais antigos indicam que Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual Civitavecchia), onde faleceu em 253. Durante muito tempo, acreditou-se que ele tivesse sido executado. Hoje, muitos historiadores entendem que sua morte pode ter ocorrido em consequência dos sofrimentos do exílio, e não necessariamente por decapitação ou outro método de execução. Ainda assim, a Igreja antiga o reconheceu como mártir, porque sua morte foi considerada consequência direta da perseguição que sofreu por causa da fé.
Seu grande correspondente e amigo, Cipriano de Cartago, escreveu diversas cartas em sua defesa durante a controvérsia envolvendo os lapsi (os cristãos que haviam renegado a fé durante a perseguição). Cipriano elogia repetidamente a firmeza de Cornélio e o apresenta como um pastor fiel que sofreu por Cristo.
Há um detalhe interessante: diferentemente de Cipriano, cujo martírio por decapitação em 258 está amplamente documentado, o modo exato da morte de Cornélio permanece menos claro. Isso explica por que alguns livros antigos o descrevem como "executado", enquanto estudos históricos mais recentes preferem dizer que ele morreu no exílio, sendo venerado como mártir em razão da perseguição...
Esse episódio é especialmente significativo para quem estuda a história da Igreja, pois Cornélio e Cipriano tornaram-se símbolos da unidade e da disciplina eclesiástica, enfrentando juntos o cisma de Novaciano e defendendo que a Igreja podia conceder reconciliação aos pecadores verdadeiramente arrependidos, sem abrir mão da santidade nem da autoridade pastoral.


Notas:

  •  [1] Imagem (adaptada) e meramente ilustrativa, feita através do chatgpt, em: 30/06/2026.
  •  [2]  CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro anos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
  •  [3] GONZÁLEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo. Vol. I: A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 138-140. 
  •  [4] Texto fundamentada em fontes filtradas por I. A. do Google (Modo IA), em 28/06/2026.
  •  [5] O bispo Cornélio foi martirizado? In: chatgpt.com. Acesso em: 30/06/2026.

5 de janeiro de 2026

Bispos e Papas (20): Cornélio

 
Bispo Cornélio [1]

O historiador Justo L. González cita em sua lista dos bispos de Roma em ordem cronológica:  Lino (?), Anacleto (?), Clemente, Evaristo, Alexandre, Sixto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleuterio (175-189), Vítor (189-199), Ceferino (199-217), Calixto (217-222), Urbano (222-230), Ponciano (230-235), Antero (235-236), Fabião (236-250), um total, até aqui [2], de dezenove bispos de Roma. O próximo que veremos abaixo é Cornélio (251-253). “Agora pois, a Felipe, que havia imperado por sete anos, sucede Décio, que por ódio a Felipe suscitou uma perseguição contra as igrejas. Nela  Fabiano consumou seu martírio em Roma e Cornélio o sucedeu no episcopado” (H. E., 6: XXXIX.

Como Eusébio destaca, Cornélio sucedeu o bispo Fabiano (ou Fabião) em um dos períodos mais turbulentos da história inicial da Igreja cristã. Seu episcopado, entre os anos ocorreu logo após a perseguição do imperador Décio, que deixou profundas feridas internas na comunidade cristã, especialmente quanto ao destino dos fiéis que haviam renegado a fé sob coerção. Veja este Edito de Trajano Décio Trajano Décio,  nome referendado pelo Senado:

“Todos os habitantes do Império estão obrigados a propiciar um sacrifício perante os magistrados de sua comunidade pela “segurança do Império”, em um dia determinado. Após fazerem o sacrifício, eles obterão um certificado (libellus) registrando o fato que eles obedeceram esta ordem. Isto é, o certificado atestará a lealdade do propiciante aos deuses ancestrais, o consumo da comida e da bebida sacrificiais, além dos nomes dos oficiais que supervisionarem o sacrifício” [3].

Alguns cristãos “... correram a obedecer ao edito imperial tão logo se informaram dele. Outros permaneceram firmes por algum tempo, mas quando foram levados diante dos tribunais ofereceram sacrifícios diante dos deuses. Outros, talvez mais astutos, se valeram de artimanhas e do poder do ouro para obter certificados falsos sem ter sacrificado nada. Outros, enfim, permaneceram firmes, e se dispuseram a enfrentar as torturas mais cruéis que seus verdugos pudessem impor...” [4]. Como afirma González, “... o propósito do imperador não era criar mártires, mas apóstatas...” (Idem, pág. 140). Os cristãos que, temendo a morte, cederam à pressão do rei, passaram a ser conhecidos como lapsi (os que “caíram”). “Mas agora, com a nova situação criada pelo edito de Décio, apareceu um grupo de pessoas que permaneciam firmes na fé, mas cuja firmeza não levava à coroa do martírio. A essas pessoas que haviam confessado sua fé em meio das torturas se lhes deu o título de ‘confessores’" (Idem, pág. 141).

Com o fim da perseguição, surgiu um grave dilema pastoral: seria possível readmitir os lapsi ou (lapsos) à comunhão da Igreja? Foi nesse cenário que Cornélio foi eleito bispo de Roma [5], após um longo período de vacância do episcopado, causado justamente pela perseguição.

A eleição de Cornélio não foi pacífica. Um presbítero romano chamado Novaciano, defensor de uma postura rigorista, opôs-se à sua nomeação e chegou a se proclamar bispo rival, tornando-se um dos primeiros antipapas da história.

Novaciano defendia que os lapsi jamais poderiam ser readmitidos à comunhão, mesmo após arrependimento. Cornélio, ao contrário, adotou uma posição pastoral e misericordiosa, sustentando que, após penitência sincera, os lapsi poderiam ser reconciliados com a Igreja.

Essa posição foi confirmada por um sínodo romano [6], que apoiou Cornélio e condenou o cisma novacianista. O bispo Cipriano de Cartago foi um dos principais aliados de Cornélio, defendendo sua legitimidade e sua teologia pastoral.

Embora Cornélio não tenha deixado uma obra teológica sistemática, seu pensamento é conhecido por meio de cartas [7] preservadas, sobretudo nas obras de Eusébio de Cesareia e na correspondência com Cipriano. Seus principais eixos pastorais foram:

·         a unidade da Igreja,

·         a autoridade legítima do episcopado,

·         a misericórdia aliada à disciplina, por meio da penitência,

·         a rejeição do rigorismo extremo que negava o perdão eclesial.

Cornélio compreendia a Igreja como uma comunidade de pecadores em processo de conversão, não como uma assembleia de perfeitos. Essa visão teve influência duradoura na prática penitencial cristã.

Durante a perseguição do imperador Treboniano Galo, sucessor de Décio, Cornélio foi exilado para Centumcellae (atual Civitavecchia), onde morreu em 253. Embora não haja unanimidade histórica quanto às circunstâncias exatas de sua morte, a tradição cristã o venerou como mártir, pois sofreu o exílio e a morte em razão da fé, “... sendo sentenciado ao martírio por ordem daquele imperador, por não aceitar prestar culto aos deuses pagãos...” (Site UCDB.

E quanto ao seu legado histórico e teológico, pode ser destacado:

-  a consolidação da autoridade do bispo de Roma em tempos de crise;

 -  ajuda no estabelecimento de uma teologia do perdão e da penitência que moldaria a prática sacramental posterior;

-  sua vitória sobre o cisma novacianista preservou a unidade e a catolicidade da Igreja.

No exílio, “... o papa [ou bispo] Cornélio passou os últimos dias da sua vida. Onde encontrava um pouco de alegria era nas cartas que recebia do bispo Cipriano, seu admirador e amigo de fé, muito preocupado em mandar-lhe algumas palavras de consolo...” (Idem).


Notas / Referências bibliográficas:

  • [2] GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires – Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1995 (Reimpressão), pág. 4 a 7.
  • [5] Texto resumido com base nas fontes:
a)  https://chatgpt.com/c/694ef888-4b0c-832c-8680-d6afb26f3c70. Acesso em 26/12/2025. 
b)  https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/09/16/ss--cornelio--papa-e-cipriano--bispo--martires.html. Acesso em 26/12/2025. 
c)  https://site.ucdb.br/santos-do-dia/sao-cornelio/278/. Acesso em 26/12/2025.
d)  GONZÁLEZ (O.C., Nota 4). 
e)  Eusébio. História Eclesiástica... (H.E.).
  • [6] “Por este motivo reuniu-se em Roma um numerosíssimo concilio, com sessenta bispos e um número ainda maior de presbíteros e diáconos, enquanto que nas demais províncias os pastores locais examinavam particularmente a fundo o que se haveria de fazer. Todos tomaram uma decisão: que Novato [Novaciano], junto com os que se haviam levantado com ele, assim como os que haviam preferido aprovar o parecer antifraterno e sumamente desumano deste homem, seriam considerados como alheios à Igreja. Por outro lado, os irmãos caídos naquela calamidade deveriam ser curados e cuidados com os remédios da penitência...” (H. E., 6:XLIII).
  • [7] “Junto com essas cartas vinha outra de Cornélio sobre as decisões do concilio, e ainda outra sobre os atos de Novato. Nada nos impede de citar um parágrafo desta para quem leia este livro saiba sobre ele” (Idem).