Por: Franklin
Ferreira

Conservadores e religiosos foram satirizados em desfile que homenageava Lula no carnaval
carioca de 2026. Foto: Antonio Lacerda/EFE)
Católicos
e protestantes podem divergir legitimamente sobre economia,
impostos, tamanho do Estado, políticas sociais, segurança pública e muitas
outras questões políticas. Isso,
porém, não significa que todas as escolhas políticas sejam moralmente
equivalentes. A fé
cristã estabelece convicções que alcançam necessariamente a vida pública: a
dignidade da vida humana, a família,
a ética sexual, a responsabilidade dos pais na educação
dos filhos, a liberdade religiosa e de consciência, a proteção dos
vulneráveis e os limites do poder político.
É
à luz dessas convicções que o Partido
dos Trabalhadores deve ser examinado. A pergunta que deve orientar os
cristãos é simples: o projeto político do PT é compatível com os fundamentos da
ética cristã histórica?
A vida
humana não é uma questão secundária
Para
católicos e protestantes, proteger a vida humana inocente não é uma “pauta de
costumes”. É consequência direta da doutrina da criação: todo ser humano porta
a imagem de Deus. Por isso, a defesa do mais vulnerável, inclusive no ventre
materno, pertence ao coração da ética cristã.
É
justamente aqui que surge um conflito concreto com posições promovidas pelo PT.
O atual programa Lula-Alckmin reafirma a defesa dos “direitos sexuais e
reprodutivos”, enquanto o próprio partido divulgou, em 2025, propostas
aprovadas na Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, entre elas
“legalizar e implementar o aborto
universal e humanizado em todos os serviços do SUS”. O Ministério da Saúde,
por sua vez, afirma atualmente que o aborto deve ser tratado como condição de
saúde pública “sem julgamentos”, embora reconheça as três hipóteses previstas
na legislação brasileira.
Para a ética cristã, porém, a pretensão de
transformar o aborto em um “direito de escolha” da mulher não pode se sobrepor
ao direito à vida daquele que ainda não pode falar nem se defender. A pergunta
que permanece é simples e decisiva: quem protege o nascituro? Nesse ponto, o
conflito não é periférico. É moral, antropológico e profundamente cristão.
Família
e sexualidade: duas antropologias em conflito
A divergência não diz respeito apenas a
políticas públicas específicas, mas à própria compreensão do ser humano.
Católicos e protestantes possuem diferenças
importantes, mas convergem nos fundamentos da antropologia cristã: Deus criou o
ser humano homem e mulher; o corpo e o sexo possuem significado dado pelo
Criador; o casamento é a união entre homem e mulher; e a família é uma
realidade anterior ao Estado. A sexualidade, portanto, não é definida pelos
desejos ou pelas escolhas do indivíduo.
O PT parte de pressupostos distintos. Seus
documentos e políticas incorporam conceitos de identidade de gênero, diversidade sexual e autodeterminação, promovidos
como expressão de direitos e combate à discriminação.
Cristãos
devem defender a dignidade de toda pessoa e condenar violência, humilhação e
injustiça contra homossexuais ou qualquer outro grupo. Isso, porém, não exige
aceitar uma concepção do ser humano incompatível com a doutrina cristã da
criação.
Estamos, portanto, diante de duas antropologias
distintas. A questão é qual compreensão de pessoa, corpo, sexo, casamento e
família será transformada em política de Estado.
Quem
tem o direito de educar nossos filhos?
Na educação, as consequências dessas duas
concepções tornam-se particularmente claras. Para a tradição cristã, católica e
protestante, os pais são os primeiros responsáveis pela educação e formação
moral dos filhos. O Estado tem responsabilidades importantes, mas não é
proprietário das crianças nem pode substituir a consciência e a autoridade da
família.
O problema surge quando a escola deixa de se
limitar à transmissão do conhecimento e passa a ser utilizada para formar
crianças segundo concepções ideológicas sobre sexo, gênero, sexualidade e
família. Políticas defendidas pelo PT incorporam essas categorias à educação e
às ações governamentais, transformando questões profundamente controversas em
conteúdo a ser promovido pelo poder público.
Ensinar uma criança a respeitar todas as
pessoas é dever elementar de civilidade. Outra coisa é ensinar como verdade uma
determinada concepção de identidade, corpo e sexualidade e tratar as convicções
cristãs como preconceito a ser superado.
Para famílias católicas e protestantes,
portanto, a questão é fundamental: a quem pertence a responsabilidade primária
pela formação moral dos filhos – aos pais ou ao Estado?
Liberdade
religiosa é mais do que liberdade de culto
Liberdade religiosa não significa apenas manter
igrejas abertas e permitir cultos aos domingos. Significa também assegurar aos
cristãos o direito de professar, ensinar e defender publicamente aquilo em que
creem.
O conflito surge quando convicções cristãs
sobre casamento, sexualidade e identidade humana são confrontadas com
concepções cada vez mais amplas de discriminação. O Estado deve proteger
homossexuais contra violência, perseguição e injustiça. Mas deve igualmente
proteger o padre, pastor, professor ou cidadão cristão que afirma publicamente
que o casamento é a união entre homem e mulher e que a sexualidade possui
limites morais estabelecidos por Deus.
O problema começa quando discordância moral
passa a ser tratada como discriminação e, consequentemente, como conduta a ser
reprimida pelo Estado.
Por isso, propostas legislativas e políticas
defendidas pelo PT nessa área exigem atenção especial dos cristãos. A questão
não é simplesmente se o governo fechará igrejas. É muito mais profunda:
continuará existindo liberdade para os cristãos permanecerem fiéis às suas
convicções quando estas contrariarem a moral promovida pelo Estado?
Corrupção,
poder e instituições
A corrupção
é uma questão moral fundamental para a tradição cristã. A Escritura condena
o suborno, a perversão da justiça e o abuso de autoridade, exigindo integridade
daqueles que exercem o poder.
O histórico dos governos petistas inclui graves
escândalos de corrupção. No mensalão, o próprio STF condenou
dirigentes do PT, entre eles José Dirceu e José Genoino. A Lava Jato, por sua
vez, revelou esquemas de corrupção envolvendo a Petrobras, grandes
empreiteiras, operadores e políticos de diversos partidos. Mais recentemente,
as investigações sobre as fraudes no INSS produziram novos desdobramentos,
incluindo um inquérito da PF sobre suspeitas envolvendo Lulinha, filho do
presidente Lula.
Também preocupa a proximidade entre poder
político e Judiciário. Toffoli foi advogado do PT; Zanin, advogado pessoal de
Lula; Dino, seu ministro da Justiça. Somados às controvérsias provocadas por
decisões recentes desses ministros em questões políticas, esses vínculos
alimentam questionamentos sobre independência e imparcialidade do STF.
A exigência bíblica permanece: governantes
devem prestar contas, juízes devem agir com imparcialidade e nenhuma autoridade
está acima da lei. Corrupção, abuso de poder e instrumentalização das
instituições são incompatíveis com a justiça que os cristãos devem exigir de
qualquer governo.
O
problema dos regimes totalitários
Há ainda uma contradição que deveria preocupar
especialmente os cristãos: a proximidade do PT com regimes totalitários
ideologicamente próximos.
Em janeiro de 2026, a Executiva Nacional do
partido manifestou “total apoio” a Cuba e reafirmou sua defesa da “Revolução
Cubana e seus ideais de justiça social”. Na Venezuela, mesmo após anos de
repressão e autoritarismo de Nicolás Maduro, o PT condenou a captura do ditador
pelos Estados Unidos e manifestou solidariedade ao regime.
Não há justificativa moral para silenciar
diante de ditaduras que perseguem opositores, censuram a imprensa, manipulam
eleições, controlam instituições, reprimem dissidentes e restringem a liberdade
religiosa e de consciência.
Afinidades ideológicas ou interesses
geopolíticos tampouco justificam a proximidade com China, Rússia e Irã ou com o
grupo terrorista Hamas. A contradição é particularmente evidente quando um
partido que se apresenta no Brasil como defensor dos direitos dos homossexuais
mantém relações políticas com governos que reprimem essas mesmas pessoas.
Para o cristão, o princípio deve ser claro:
nenhuma ditadura se torna moralmente aceitável por invocar socialismo,
anti-imperialismo ou justiça social. A tirania continua sendo tirania, qualquer
que seja sua bandeira.
O voto
também é uma questão de consciência
O cristão não entra na cabine eleitoral
deixando sua fé do lado de fora. O voto é também um ato de consciência e,
portanto, deve estar submetido às convicções que professamos diante de Deus.
Afinal, votar tem consequências concretas: elegemos pessoas que tomarão
decisões sobre vida, família, educação, liberdade religiosa, justiça, segurança
e os limites do poder estatal.
Também não devemos idealizar candidatos como se
estivéssemos escolhendo clérigos ou modelos de perfeição moral. Não elegemos
pastores, mas presidentes, senadores e deputados para exercer funções civis.
Como Victor Davis Hanson tem observado, apoiar um político não significa
canonizar sua vida pessoal. É preciso considerar seu caráter, mas também o que
fará no cargo: as políticas que promoverá, as pessoas que nomeará e as
instituições que fortalecerá ou enfraquecerá. Exigir perfeição moral dos
candidatos é ingenuidade; ignorar seus princípios, suas propostas e as
consequências de sua eleição também é.
À luz do que examinamos, as divergências entre
princípios históricos do cristianismo e posições assumidas pelo PT alcançam
questões fundamentais: vida nascente, sexualidade, família, autoridade dos
pais, liberdade de consciência, corrupção, independência das instituições e
relações com regimes totalitários. Políticas sociais consideradas positivas não
eliminam essas divergências.
João Calvino advertiu aqueles que receberam a
liberdade de escolher seus governantes: “E vós, ó povos, a quem Deus deu a
liberdade de escolher seus próprios magistrados, cuidem-se de não se privarem
deste favor, elegendo para a posição de mais alta honra, patifes e inimigos de
Deus”.
A questão decisiva, portanto, não é qual
partido ou candidato é perfeito. Nenhum é. É outra, mais séria: à luz daquilo
que creio diante de Deus, a quem posso entregar meu voto sem contradizer os
princípios da fé que professo?
O voto é secreto, mas a responsabilidade moral
de quem vota não.
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Fonte:
FERREIRA, FRANKLIN. O
credo petista é irreconciliável com a fé cristã. In. Gazeta do Povo,
1º/10/2026. Texto e imagem disponíveis em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/plataformas-pt-incompativeis-cristianismo/.
Acesso em: 02/10/2026