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7 de setembro de 2026

William Wilberforce: fé, política e a luta pela dignidade humana

Por: Alcides Amorim

“No século XVIII, a Inglaterra detinha o o monopólio do comércio de escravos negros. Os meios de transporte eram os mais cruéis imagináveis. Boa parte da população inglesa tirava proveito desse comércio, e o povo, de maneira geral, aceitava a escravidão... Mas Deus graciosamente ergueu uma geração de políticos cristãos para lutar contra o que William Carey chamou de ‘maldito comércio de escravos’...” [1]

William Wilberforce (1759-1833) [2]

Ao escrever o artigo Cidadãos do Céu, Eleitores na Terra: a política sob a cosmovisão cristã, uma das questões que procurei considerar foi a responsabilidade do cristão diante da vida pública. Afinal, se a fé cristã alcança todas as dimensões da existência humana, seria difícil sustentar que a política devesse constituir uma espécie de território neutro, onde as convicções cristãs precisassem ser deixadas do lado de fora. Mas como isso pode acontecer concretamente? Como um cristão pode participar da vida política sem transformar sua fé em instrumento de disputa partidária e, ao mesmo tempo, sem abrir mão dos princípios que sua consciência cristã lhe impõe?

Foi durante uma breve pesquisa relacionada àquele artigo que me deparei com a figura de William Wilberforce, parlamentar inglês do século XVIII. Confesso que, até então, sua história me era pouco conhecida. E entendi, então, que sua trajetória merecia um artigo próprio. Sua conversão ao cristianismo evangélico, sua permanência na vida política, sua luta persistente contra o tráfico de escravizados e sua compreensão da fé como fundamento para a vida pública constituem um interessante exemplo histórico de como a convicção cristã pode ultrapassar os limites da experiência individual e produzir consequências na sociedade. Não se trata, evidentemente, de transportar para o Brasil do século XXI as circunstâncias da Inglaterra de dois séculos atrás, mas de perguntar o que sua história pode nos ensinar sobre fé, vocação, política e responsabilidade cristã.

William Wilberforce viveu numa Inglaterra marcada por profundas contradições. De um lado, o século XVIII testemunhava o crescimento econômico, a expansão comercial e marítima do Império Britânico, o desenvolvimento das cidades e o fortalecimento da influência britânica no mundo. De outro, essa prosperidade estava ligada, em parte, a um sistema colonial que incluía o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a exploração econômica das colônias. Açúcar, tabaco e outros produtos provenientes das possessões britânicas chegavam à metrópole alimentando hábitos de consumo e interesses comerciais, enquanto milhares de homens, mulheres   crianças eram arrancados de sua terra, transportados em condições desumanas e reduzidos à condição de mercadoria.

Era também uma época de grandes transformações intelectuais e políticas. O pensamento iluminista colocava em discussão antigas concepções de autoridade, sociedade e liberdade. Ao mesmo tempo, movimentos de renovação religiosa alcançavam setores da Igreja da Inglaterra. O chamado evangelicalismo inglês insistia na necessidade de uma fé pessoal, na centralidade das Escrituras, na conversão e numa vida cristã que produzisse frutos concretos na sociedade. Foi nesse ambiente contraditório que Wilberforce cresceu e iniciou sua carreira pública.

Nascido em Hull, em 1759, pertencente a uma família abastada, filho único de Robert e Elizabeth Wilberforce, William recebeu boa educação e ingressou na Universidade de Cambridge. Ali estabeleceu amizade com William Pitt, que posteriormente se tornaria primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Jovem, inteligente, eloquente e dotado de grande habilidade política, Wilberforce foi eleito para o Parlamento em 1780, aos 21 anos. A política parecia ser seu caminho natural. Entretanto, naquele momento, sua vida religiosa (cristã) ainda estava longe de possuir a profundidade que posteriormente a caracterizaria.

A mudança decisiva ocorreu alguns anos depois. Entre 1784 e 1785, Wilberforce passou por uma profunda experiência de conversão. Ele já era formalmente membro da Igreja da Inglaterra, mas sua fé havia sido, até então, em grande medida uma questão nominal e social. O encontro com o cristianismo evangélico, a leitura das Escrituras e, particularmente, sua proximidade com John Newton – antigo capitão de navio negreiro que havia se tornado pastor anglicano e autor do conhecido hino Amazing Grace – contribuíram para transformar radicalmente sua compreensão da fé cristã. Além da proximidade com o autor do hino Amazing Grace, Wilberforce, segundo FERREIRA (pág. 310), teve proximidade com Philip Doddridge, que escreveu o conhecido hino “Oh Happy Day” [3].   

Wilberforce passou a enxergar sua própria vida à luz da eternidade. Sua conversão trouxe-lhe inclusive uma crise de consciência em relação à carreira política. Por algum tempo, chegou a considerar a possibilidade de abandonar o Parlamento, imaginando que a vida política fosse incompatível com uma existência verdadeiramente cristã. Foi nesse período que John Newton teve importante participação ao encorajá-lo a permanecer onde estava. Em vez de abandonar sua vocação pública, Wilberforce deveria procurar exercê-la sob o senhorio de Cristo.

Essa compreensão seria decisiva para o restante de sua vida. Wilberforce não deixou a política para viver sua fé; levou sua fé para dentro da política. A conversão não o transformou num político menos interessado nos assuntos públicos, mas num político que passou a enxergar esses assuntos sob uma nova perspectiva moral e espiritual.

Foi nesse contexto que a questão da escravidão começou a ocupar lugar central em sua atuação. O tráfico de africanos escravizados era uma atividade profundamente enraizada nos interesses econômicos britânicos. Combatê-lo significava enfrentar comerciantes, proprietários, interesses coloniais e setores influentes da própria sociedade. Não se tratava, portanto, de uma causa simples, capaz de ser resolvida por uma votação isolada.

Wilberforce encontrou aliados importantes. Thomas Clarkson dedicou-se à investigação e à divulgação das atrocidades do tráfico; John Newton utilizou sua própria experiência para testemunhar contra o sistema que anteriormente ajudara a sustentar; Hannah More empregou sua produção literária e sua influência social; e outros cristãos evangélicos formaram uma rede de mobilização que alcançava igrejas, escritores, parlamentares e a população em geral.

Wilberforce tornou-se a principal voz parlamentar dessa campanha. Em 1789, apresentou ao Parlamento um dos seus primeiros grandes discursos contra o tráfico, procurando demonstrar que aquela prática era moralmente indefensável. A reação, entretanto, foi muito mais difícil do que talvez se pudesse imaginar. Vieram adiamentos, derrotas, resistências e argumentos econômicos. A causa abolicionista precisou enfrentar não apenas adversários políticos, mas também uma cultura que havia se acostumado a considerar normal aquilo que, à luz dos princípios cristãos e da própria ideia de dignidade humana, era profundamente injusto.

Durante anos, Wilberforce insistiu. Derrota após derrota, continuou retornando ao Parlamento. Sua trajetória demonstra que grandes mudanças sociais raramente acontecem de maneira instantânea. Algumas exigem convicção, organização, argumentação, mobilização e, sobretudo, perseverança.

Finalmente, em 1807, depois de aproximadamente duas décadas de luta, o Parlamento britânico aprovou a legislação que aboliu o tráfico de escravos no Império Britânico. É importante fazer aqui uma distinção histórica: a lei de 1807 não significou a imediata emancipação de todos os escravizados nas colônias britânicas. A escravidão propriamente dita seria abolida posteriormente, em 1833, pouco antes da morte de Wilberforce.

A vitória de 1807, contudo, não foi apenas resultado da atuação de um parlamentar. Ela foi fruto de um movimento que havia procurado modificar também a consciência da sociedade. A luta contra o tráfico esteve ligada a uma visão mais ampla de reforma moral e social. Wilberforce e seus companheiros compreendiam que uma sociedade não poderia ser verdadeiramente civilizada enquanto aceitasse a transformação de seres humanos em mercadoria.

Essa dimensão mais ampla de sua atuação é particularmente importante. Wilberforce não se limitou à questão da escravidão. Participou de iniciativas relacionadas à educação, à reforma das condições sociais e à promoção dos valores cristãos. O movimento evangélico ao qual estava ligado procurou atuar em diferentes áreas da sociedade. A fé, para Wilberforce, não deveria permanecer confinada às paredes do templo. Ela deveria alcançar a vida pessoal, a cultura, os costumes e as instituições.

Nesse sentido, sua história oferece uma reflexão especialmente relevante para o conservadorismo cristão de nossos dias. Wilberforce demonstra que a participação política do cristão não precisa significar a transformação da fé em ideologia partidária. Tampouco exige que o cristão abandone suas convicções religiosas para ser considerado um cidadão responsável. Ao contrário: sua atuação pública foi profundamente influenciada por sua compreensão cristã do ser humano, da moralidade e da responsabilidade diante de Deus.

Há aqui uma lição que merece ser considerada. O conservadorismo cristão não pode ser reduzido à defesa de determinadas pautas políticas, à preservação de interesses econômicos ou à identificação com um partido. Se pretende conservar aquilo que merece ser conservado, precisa também perguntar pelos fundamentos morais que tornam possível uma sociedade justa.

Wilberforce viveu numa sociedade que possuía instituições, leis, tradições e uma economia vigorosa, mas que tolerava uma grave injustiça. Sua postura mostra que conservar nem sempre significa simplesmente manter o estado de coisas existente. Há momentos em que a fidelidade aos princípios exige reforma. E há situações em que a defesa da dignidade humana exige enfrentar interesses poderosos, mesmo quando esses interesses estão profundamente incorporados à estrutura social.

Isso não significa transformar Wilberforce em um personagem político brasileiro do século XXI. Os contextos são diferentes, os problemas são diferentes e as circunstâncias históricas não podem ser simplesmente transportadas de uma época para outra. A lição está nos princípios.

O cristão que participa da vida pública precisa cultivar convicções, mas também prudência; precisa defender valores, mas sem transformar o adversário político em inimigo absoluto; precisa compreender que a política é importante, mas não é o Reino de Deus; precisa reconhecer a autoridade das instituições, mas também lembrar que nenhuma autoridade humana está acima da verdade e da justiça.

Wilberforce também ensina a importância da perseverança. Foram necessários muitos anos para que uma causa que parecia quase impossível alcançasse uma vitória concreta. Num tempo em que a política frequentemente é marcada pela ansiedade, pela polarização e pela expectativa de resultados imediatos, sua trajetória recorda que algumas batalhas precisam ser travadas durante anos antes que seus frutos possam ser percebidos.

Talvez esteja aí uma das maiores contribuições de sua história para o conservadorismo cristão brasileiro: a política não deve ser o lugar onde o cristão abandona sua consciência; deve ser um dos lugares onde sua consciência cristã é exercida com responsabilidade.

Wilberforce não foi perfeito, nem sua época pode ser idealizada. Mas sua vida demonstra que a fé cristã pode produzir consequências concretas na esfera pública quando está associada à convicção, à coragem e à perseverança. Ele compreendeu que possuir poder político não era um fim em si mesmo. A política era uma vocação — e uma vocação deveria ser exercida diante de Deus.

Por isso, sua história permanece atual. Não porque devamos procurar no século XVIII respostas prontas para os problemas do Brasil de hoje, mas porque a pergunta fundamental continua sendo a mesma: o que significa viver a fé cristã quando se tem responsabilidade diante da sociedade?

A resposta de Wilberforce foi dada não apenas em palavras, mas em décadas de trabalho, derrotas e perseverança. Ele entrou no Parlamento como jovem político. Saiu dele tendo ajudado a mudar a história de seu país.

E talvez essa seja a grande lição: a fé genuína não retira necessariamente o cristão da praça pública; ela pode levá-lo a entrar nela com uma consciência renovada, sabendo que, acima dos interesses políticos, existem princípios pelos quais vale a pena lutar.

Veja também:

Notas:

  • [1] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da Igreja. São José dos Campos/SP: Fiel, 2014, pág.309. Outras fontes acerca de Wilberforce, foram filtradas, via I. A. CHATGPT: históricas institucionais do Parlamento Britânico, e acadêmicas e biográficas, extraídas da Oxford Academic... Acesso em: 03/09/2026.

  • [2] WILBERFORCE, William. Pintura à Óleo, de John Rising, 1790. National Portrait Gallery.
  • [3] Philip Doddridge (1702–1751) foi pastor e escritor inglês, além de autor de numerosos hinos. Entre eles está “O Happy Day, That Fixed My Choice”, posteriormente conhecido, em versões adaptadas, como “Oh Happy Day”. Sua obra The Rise and Progress of Religion in the Soul, publicada originalmente em 1745, exerceu grande influência na espiritualidade evangélica inglesa e foi lida por William Wilberforce juntamente com seu amigo Isaac Milner.

9 de maio de 2025

Você já está salvo (a)?

 Por: Alcides Amorim

“E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para ser salvo? E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16.30,31).

O naufrágio do Titanic (Wikipedia)

Ouça o conteúdo: ...

No contexto dos versos bíblicos acima, os missionários Paulo e Silas estavam presos em Filipos, uma das cidades da Macedônia, por pregarem o Evangelho. E perto da meia-noite, enquanto ambos oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam, sobreveio à prisão um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos. O carcereiro assustado, vendo abertas as portas da prisão, tirou a espada, e quis matar-se, cuidando que os presos já tinham fugido. Mas Paulo pede que ele não lhe fizesse nenhum mal, pois ninguém tinha escapado. “... todos aqui estamos”, disse Paulo. O carcereiro, “todo trêmulo, se prostrou ante Paulo e Silas” (v. 29), e pergunta o que fazer para ser salvo (v. 30). A resposta de Paulo e Silas ao carcereiro foi: “... crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (v. 31).

Então podemos perguntar: e o que é a salvação? Quem é que salva as pessoas e do que as pessoas são salvas? Em princípio, a salvação que o carcereiro e sua família buscavam era um livramento da pena do Estado romano caso os presos tivessem fugido e também pelo fato de prender um cidadão romano (Paulo) sem averiguar antes as consequências desta atitude. Mas os missionários partem deste ponto e vão mais além, falando da salvação eterna (v. 32) a ele e a todos os que estavam em sua casa. Ao serem batizados (v. 33), o carcereiro e os membros de sua família já tinham entendido o que era arrependimento dos pecados, confissão e entrega ao Salvador. Desta forma, ele e a sua família creu e obteve a salvação espiritual e eterna agora como parte da Igreja de Cristo. Neste caso, o carcereiro foi salvo tanto da situação presente e terrena quanto da pena eterna dos seus pecados na vida pós-morte.

Você já está salvo ou salva? Esta é uma pergunta recorrente dos evangelistas cristãos às pessoas que ouvem suas pregações. E também foi feita pelo pastor John Harper um pouco antes de sua morte. Ouvi sobre ele no último domingo, 5 de maio de 2025, na celebração das 8 horas, em minha igreja, Igreja da Cidade de Pindamonhangaba, pelo Pr David Tiburcio que citou, durante sua mensagem, como aquele pregador e pastor  morreu. Isto me levou a pesquisar um pouco mais sobre o mesmo.

John Harper nasceu em 29 de maio de 1872, em Houston, Escócia, e sua morte aconteceu em 15 de abril de 1912, no Oceano Atlântico, tendo ele apenas 39 anos. Aquele pastor batista começou a pregar aos 18 anos e quando faleceu já era viúvo e tinha uma filha de seis anos.

Convidado para pregar por várias semanas em Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos, na Igreja Moody, Harper, sua filha Annie Jessie, e sua irmã, Jessie W. Leitch estavam naquele famoso navio Titanic. Quando o navio colidiu com um iceberg, sua irmã e sua filha foram colocadas em um bote salva-vidas e sobreviveram, mas Harper ficou para trás com o objetivo de cumprir sua última missão: perder sua vida para salvar outras.

Diz o Portal Guiame (aqui) [1]:

Pastor John Harper e o Titanic

No livro “The Titanic's Last Hero” (“O Último Herói do Titanic”), publicado em 2012 por Moody Adams, foi registrado o testemunho do último homem evangelizado pelo pastor.

Nos cinquenta minutos finais, George Henry Cavell [2], que estava apoiado numa prancha, se aproximou de John Harper. Harper, que estava se debatendo na água, gritou: ‘Você é salvo?’ Ele respondeu: ‘Não’. Harper gritou as palavras da Bíblia: ‘Creia no Senhor Jesus Cristo e será salvo’. Antes de responder, o homem foi puxado para dentro do mar.

Minutos mais tarde, a corrente trouxe George de volta e eles ficaram à vista um do outro. Mais uma vez, Harper gritou: "Você é salvo?" Novamente, ele respondeu: "Não". Harper repetiu as palavras de Atos 16:31: "Creia no Senhor Jesus Cristo e você será salvo".

Cansado e sem forças, Harper escorregou no mar e morreu afogado. O homem que ele evangelizou depositou sua fé em Jesus Cristo e, mais tarde, foi resgatado pelos botes salva-vidas. Na província de Ontário, no Canadá, George Henry testemunhou que foi o último convertido de John Harper.

O pregador Harper testemunhou a mensagem para várias pessoas no mar antes de morrer. Em seu artigo [3] A última conversão de John Harper, por exemplo, Dr.  Erwin W. Lutzer faz referência ao último convertido de John Harper, mas ele não cita o nome, mas parece tratar-se do mesmo personagem relatado acima: George Henry Cavell. Lutzer fala também de uma pessoa que ficou com o colete salva-vidas de Harper que parece ser outra pessoa, além de Cavell. “Um relatório diz que Harper, sabendo que não poderia sobreviver por muito tempo na água gelada, tirou o colete salva-vidas e jogou-o para outra pessoa com as palavras, ‘Você precisa mais disso do que eu!’ Momentos depois, Harper desapareceu debaixo d'água...”.

Bem, John Harper foi salvo sem se salvar. Explico: ele não salvou sua vida terrena no naufrágio do Titanic, mas salvou sua vida espiritual (alma/espírito) da eternidade sem Cristo. Mas Jesus fala da salvação do corpo todo (cf. Mateus 5.29-30) também. Mas isto se dará com a ressurreição final dos mortos, quando, inclusive, o mar dará os seus mortos que nele houverem (Apocalipse 20.13).

 Jesus disse que veio à Terra para que todos tenham vida e a tenham com abundância (João 10.10), embora Jesus mesmo morreu! Seus apóstolos também! Mas ressuscitou! E “ ... tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele” (Romanos 6.9). A morte física é destino de (quase) todos [4]. Mas os que morrem fisicamente em Cristo, mesmo sendo num naufrágio, seu espírito será salvo; e continuam vivos, aliás, a verdadeira vida começa após a sua morte física e a vida eterna também. E esta questão vai além da razão e é assunto da própria filosofia. Um filósofo que também morreu jovem, com apenas 39 anos – a exemplo de John Harper –, chamado Blaise Pascal, propôs que “apostemos” no assunto da crença em Deus e na eternidade. Apostar que Deus existe importa numa modesta entrega da nossa razão, mas optar pela não-existência divina é arriscar a perda da vida e felicidade eternas. Óbvio que como filósofo e racionalista, Pascal também questiona que caso Deus não existisse (mas ele cria) o valor da aposta (a nossa razão) é mínimo comparado ao prêmio que pode ser ganho na eternidade.

Alexandre Robles afirma que a impressão que ele tem é que este mundo é um Titanic em naufrágio. Os botes que existem são negociados pelos políticos corruptos que lutam para salvar sua pele; os miseráveis estão no mais baixo pavimento lutando para emergir e salvar a própria vida; a elite está bem servida etc., enquanto a “... religião está tocando violinos, discutindo teologias caducas e promovendo cultos alienantes, porque não sabe o que fazer diante do iminente trágico e na esperança de fazer o fundo musical do evento, neste caso mórbido”[5].

Em suma, podemos afirmar que assim como no Titanic, no mundo, em se tratando de vida terrena e vida eterna, há apenas duas classes de pessoas: salvas e perdidas. Se você não tem certeza de que lado está, escolha JESUS. “Creia no Senhor Jesus e será salvo ou salva”.

Solus Christus! A Ele, Soli Deo Gloria!!!

Sugiro também o vídeo de Diego Urbano:



Notas / Referências bibliográficas: 

  • [2] Veja em: https://www.encyclopedia-titanica.org/titanic-survivor/george-henry-cavell.html o depoimento de George Henry Cavell, anos após o naufrágio. Segundo esta fonte, Cavell era funcionário (bombeiro?) da companhia que administrava o Titanic... Ele nasceu em Hampshire, Inglaterra, em 4 de dezembro de 1889 e morreu em Winchester, Hampshire, em 21 de julho de 1966. Mas o texto não cita nada da experiência de conversão de Cavell. Acesso em: 07/05/2025. 
  • [3] LUTZER, Dr. Erwin W. A última conversão de John Harper. Disponível em: https://www.moodymedia.org/articles/sharing-gift-christmas-one-minute-you-die/. Acesso em: 07/05/2025.
  • [4] Digo “quase todos” pois quando acontecer o arrebatamento de parte da Igreja por ocasião da volta de Cristo, os que estiverem preparados naquele dia serão transformados sem passar pela morte e encontrarão os demais crentes que já morreram e com o Mestre Jesus nos ares (1 Tessalonicenses 4.17).

 





19 de janeiro de 2024

A Segunda Guerra Mundial e o Contexto Cristão

Por: Alcides Amorim


Já destacamos, em relação ao estudo sobre a Primeira Guerra Mundial, os seus aspectos políticos, sociais e econômicos, e também a posição teológico-cristã, sobretudo da pessoa de Karl Barth, considerado o maior teólogo do século XX. Na época, diversos promotores da paz, cristãos como o papa Bento_XV, os protestantes Söderblom, Harnack e o próprio Barth, apelaram para a obtenção da paz através da comunhão cristã. Mas apesar de seus esforços e os de muitos outros, a paz durou apenas cerca de 20 anos, surgindo a Segunda Guerra Mundial, com resultados terríveis sobretudo para os judeus. Como vimos aqui, cerca de 46 milhões de pessoas foram mortas das quais cerca de 6 milhões apenas de judeus. Queremos, portanto, falar um pouco, neste post, sobre os aspectos teológico-cristãos no contexto da segunda grande guerra.

Sobre a posição da Igreja Católica (ou papal?) da época, importante ver algumas informações sobre o italiano Eugenio María Giuseppe Giovanni Pacelli, o Pio XII, que foi papa entre 1939 e 1958, e, portanto, liderou a Igreja por todo o período da Segunda Guerra. Sob o título “'Papa de Hitler' ou 'salvador dos judeus'?”, o jornalista Juan Francisco Alonso da BBC News Brasil, descreve Pio XII como um líder religioso omisso, polêmico e ambíguo, a despeito de afirmar ser “… o nazismo um movimento político pagão que destratava os católicos, [mas] o papa não foi particularmente incômodo para o Terceiro Reich” (Idem). Seu silêncio frente às atrocidades cometidas contra os judeus durante o holocausto, favoreceu muito mais o atroz Hitler do que suas vítimas. Inclusive uma carta de 1942, escrita por um padre jesuíta alemão ao secretário de Pio XII na época, e descoberta recentemente, traz à tona esta polêmica. Na carta, com o título “Pio XII Sabia”, o padre jesuíta Lother Koenig relatava o que estava acontecendo em três campos de concentração (Belzec, Auschwitz e Dachau) e, apesar disso, não o denunciaram publicamente. “Esse silêncio é a razão pela qual muitos historiadores e setores da comunidade judaica consideram o falecido pontífice, que desde 2009 é um aspirante a santo, um cúmplice do Holocausto” (Idem).

Embora textos como este, por exemplo, afirmem que Pio XII se esforçou muito para salvar os judeus, outros, como o referido acima, não concordam que Eugenio María Giuseppe Giovanni Pacelli tenha se esforçado o suficiente para salvar o povo judeu. Inclusive o pesquisador britânico John Cornwell afirma: "Não há dúvida de que muitos católicos — padres, freiras e fiéis — em toda a Europa ocupada salvaram muitos judeus, mas acho escandaloso que o Vaticano afirme que isso aconteceu graças às instruções do papa" (Idem). Em síntese, enquanto alguns padres, freiras e outros fiéis, incluindo leigos católicos lutaram pela paz no mundo, o papel do papa falhou muito nesta missão. De modo que neste período “… embora a reação do papa à perseguição dos judeus na Alemanha e nas áreas ocupadas da Europa deixasse muito a desejar, havia outros católicos arriscando a vida e a liberdade por causa dos irmãos judeus” (Veja aqui). Na verdade, certas decisões da Igreja Católica durante sua história têm sido terríveis para os judeus, não só durante a Segunda Grande Guerra. Por exemplo, em seu artigo, Inédito: conheça todo o ódio, intolerância e perseguição da Igreja Católica aos judeus na história, que é parte de seu livro sobre a Reforma, Lucas Banzoli, depois de fazer um histórico sobre o antissemitismo da Igreja Católica através da história da Igreja, afirma que

“ … o nazismo não foi um mal que surgiu ‘do nada’, mas é antes de tudo o fruto de toda uma mentalidade antissemita que se desenvolveu por séculos, tendo no papado, na Inquisição e na pessoa dos reis católicos o seu pontapé inicial. As ideias de ‘pureza de sangue’ e seus estatutos contra os judeus e seus descendentes serviram de inspiração a Hitler, que não tardou em implementá-los também em seu país. Toda a ideologia nazista era baseada na política de discriminação racial predominante na Idade Média e que já massacrava judeus muito antes de um führer chegar ao poder no século XX. Como um pavio fumegante de uma bomba prestes a estourar, era mera questão de tempo até que o antissemitismo eclesial tomasse a forma de antissemitismo de Estado e resultasse no extermínio de milhões de judeus, não apenas na Alemanha, mas ao redor de todo o mundo” (Idem).


E a posição protestante?

Bem, também no meio protestante havia até a Igreja do Reich, liderada por Ludwig Müller, um pastor luterano antissemita, associado ao nazismo, que defendia o “cristianismo positivo” e considerava Jesus Cristo como sendo ariano.

Mas vale destacar especificamente o papel de Karl_Barth, sobre o qual já falamos, e também o de Dietrich Bonhoeffer (1906–1945) e de um grupo minoritário de cristãos que veio a formar a chamada Igreja Confessante e liderada por Martin Niemöller.

Barth, além de suas contribuições teológicas – interpretações sobre A carta aos romanos –, visando dar uma resposta espiritual aos problemas da Europa, também assumiu posição de resistência frente ao regime nazista, participando da Igreja Confessante, ao lado de Bonhoeffer e Niemöller.

De Niemöller, também sabemos, além de sua sua luta antinazista, de um texto muito conhecido, chamado "Eu me calei", muitas vezes adaptado (parafraseado) conforme as diferentes situações em que o mesmo é lembrado e citado:

Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado – porque não era socialista.
Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado – porque não era sindicalista.
Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado – porque não era judeu.
Foi então que eles vieram me buscar, e já não havia mais ninguém para me defender” (In: Enciclopédia do Holocausto - Martin Niemöller).

Na década de 1920, Niemöller simpatizava com muitas das ideias nazistas, mas após Adolf Hitler chegar ao poder em 1933, Niemöller tornou-se um crítico ferrenho da interferência de Hitler nas igrejas protestantes. Por isso, passou os últimos oito anos do governo nazista, de 1937 a 1945, em prisões e campos de concentração, mas conseguiu sobreviver até 1984. O mesmo não aconteceu com Dietrich Bonhoeffer. Este morreu ainda durante a guerra. E como? Interessante que este artigo de autoria católica afirma que “… antes do fim do primeiro século, o termo ‘santo’ era reservado exclusivamente ao mártir, e o martírio é, ainda hoje, o caminho mais certo para a canonização”. Mas este princípio não se aplicou ao protestante Dietrich Bonhoeffer, que foi morto pelos nazistas! Pois é, “… na madrugada de 9 de abril de 1945, Dietrich Bonhoeffer ‘foi levado nu até o pátio de execuções’ da prisão de Flossenbürg, na Alemanha. ‘Os guardas o ridicularizaram e desprezaram. Aos pés do cadafalso’, Bonhoeffer ajoelhou e orou. ‘Então, subiu os degraus até a forca’, onde morreu cerca de trinta minutos depois, asfixiado por um nó de corda de piano (Bonhoefferblog)”.

O historiador Justo L.González, no último volume de sua obra A era inconclusa (IV): o Protestantismo na Europa, afirma sobre o que Barth declarava "... que a religião é um esforço humano pelo qual nos tentamos esconder de Deus" e baseado nesta afirmação, Bonhoeffer enfatizava um “cristianismo sem religião”, princípio que ficou marcado para o futuro do cristianismo. Em nossas igrejas evangélicas (quase todas), hoje, entendemos que a salvação não está numa religião, mas numa pessoa: Jesus Cristo. Viver para e em Cristo é viver um cristianismo sem religião. E o preço desta escolha foi muito alto para Bonhoeffer. Como ele tornou-se um ferrenho inimigo do regime, a gestapo não o perdoou. González, assim descreve em seu texto sobre Bonhoeffer: 

"... À medida que o exército americano avançava e a derrota se tornava inevitável, o Terceiro Reich passou a eliminar os que considerava seus piores inimigos. Bonhoeffer estava entre eles. Após uma rápida corte marcial, ele foi condenado à morte. Posteriormente, o médico da prisão disse tê-lo visto ajoelhado em sua cela, orando em preparação para a morte. Em 9 de abril de 1945, dois anos e quatro dias após sua prisão, Dietrich Bonhoeffer foi enforcado. Alguns dias depois, a prisão onde ele havia sido executado foi tomada pelo exército americano" (Idem), pág. 71).


Leia também:

Um pouco mais sobre a história de Dietrich Bonhoeffer e o papel na resistência cristã pode ser visto no vídeo a seguir, de Teologia Missional.











8 de outubro de 2023

Bispos e Papas: (1) Lino

Bispos e Papas: (1) Lino

Por Alcides Amorim


Bispo Lino [1]


Quero iniciar, com a ajuda de Deus, um trabalho resumido sobre os bispos, que segundo a Igreja Católica tornaram-se papas e seguiremos a falar sobre os demais, se conseguir, até os dias atuais, no momento, o papa Francisco.

Assumo aqui a posição protestante, que afirma ser o primeiro papa, não o apóstolo Pedro, e sim, Leão I (440-461), que “… defendeu explicitamente a autoridade papal, articulando mais plenamente o texto de Mateus 16.18 como fundamento da autoridade dos bispos de Roma como sucessores de Pedro... [1]”, dando início – aliás, continuidade – à ideia de papado [2] A partir daí, a autoridade papal passou a ficar em evidência, sendo que, inclusive “… seu sucessor Gelásio I (492-496) expôs a célebre teoria das duas espadas: dentre os dois poderes legítimos que Deus criou para governar no mundo, o poder espiritual – representado pelo papa – tinha supremacia sobre o poder secular sempre que os dois entravam em conflito…” Essas raízes da supremacia eclesiástica romana foram alimentadas pelas atividades capazes de muitos papas.

O bispo de Roma, considerado agora “bispo dos bispos”, já a partir de Vitor I (189 a 199), reivindica também a posição de “sucessor de Pedro”, com Leão I (440-461). Mas, neste momento, o império já estava dividido e Roma estava preste a cair nas mãos dos “bárbaros”, principalmente os hunos, sob o governo de Átila. Com Leão, chamado também de “Leão I, o Grande”, e os bispos de Roma ou (agora) papas, que lhe sucedem, estes conseguiram manter certa estabilidade em Roma, após sua desintegração pelos bárbaros, e assim prossegue por toda a Idade Média [3].

Quero portanto, destacar até Leão I, os bispos mencionados por Eusébio [4], e depois passaremos a chamar de papas os chefes da Igreja Católica até o momento, se Deus nos permitir.

Iniciaremos pelo bispo Lino.

Eusébio (HE, Livro 3, Cap. II) destaca Lino como o que primeiro presidiu sobre a igreja em Roma, após o martírio de Pedro e Paulo. No capítulo IV (Livro 3), Eusébio afirma: “Quanto a Lino, mencionado em sua segunda Epístola a Timóteo como seu companheiro em Roma, já se declarou ter sido o primeiro depois de Pedro a obter o episcopado de Roma”.

Importante destacar que Eusébio de Cesareia afirma isto já no início do século IV, quando muitos (até possivelmente equivocados) já tinham uma lista feita dos bispos sucessores de Pedro, que posteriormente constaram na listas dos papas pelos teólogos católicos.

Mas nem todos os católicos acreditam assim. No artigo mencionado acima (Nota 3), Hans Kung, teólogo e sacerdote católico, afirma, ao tratar de Pedro como possuidor de uma episcopado monárquico, que “… no entanto, teólogos católicos concedem que não há evidência confiável de que Pedro tenha sido encarregado da Igreja de Roma como chefe supremo ou bispo. Em qualquer caso, o episcopado monárquico foi introduzido em Roma relativamente tarde”. E sobre os bispos de Roma como sucessores de Pedro, incluindo logicamente Lino, foi Leão que “… viu o Bispo de Roma como sucessor de Pedro fundamentado numa carta do Papa Clemente a Tiago, irmão do Senhor, em Jerusalém. De acordo com essa, em seu último testamento Pedro fez de Clemente seu único sucessor legítimo. Mas a carta era uma falsificação do final do segundo século e foi traduzida em latim apenas no final do século IV e o início do V”.

Bem, percebe-se que além de poucas informações sobre Lino, e algumas até questionáveis, ficamos apenas com o contexto histórico e religioso de seus dias.

  • Lino era colaborador e contemporâneo de Pedro, Paulo, Timóteo e de muitos cristãos que possivelmente até chegaram a conviver com Jesus.
  • A única referência que encontramos na Bíblia sobre Lino, não dá um destaque como sendo ele portador de um cargo eclesiástico, como bispo.
  • Quem afirma ter sido Lino, bispo de Roma e sucessor de Pedro, foi Eusébio, porém não encontramos nada de seu trabalho. Alias, até sobre a pessoa de Pedro, como bispo de Roma, há muitos questionamentos.
  • Lino, como primeiro sucessor de Pedro, conforme afirma a maioria (acho) dos teólogos católicos, também é identificado como o segundo Papa pela Igreja Católica.
  • Se procederem as informações da Wikipédia, Lino era italiano, nascido na Toscana e pode ter estado entre os setenta (setenta e dois) discípulos enviados enviados por Jesus (Lc 10). Se Lino era italiano, é quase certo que não fora um dos 70 discípulos de Jesus.
  • O ambiente político para os cristãos era de perseguição, pois os conflitos dos cristãos como o Estado romano já estavam em prática, e Pedro e Paulo acabaram-se sendo martirizados, sob o imperador Nero (54-68), além de os cristãos terem sido culpados pelo incêndio de Roma, em 64. Possivelmente, ele tenha companhado também os governos dos imperadores5 Galba (68-69), Oto (69), Vitélio (69) e Vespasiano (69-79).

Lino está, além da lista dos papas, também entre os mártires e santos da Igreja Católica. Aqui, afirma-se que a morte de Lino pode ter ocorrido em 67, ou 78, ou ainda em 81, decapitado pelo cônsul Saturnino.


Notas / Referências bibliográficas:

  • [2]  Por papado, entende-se ”… a crença na jurisdição universal de um bispo romano infalível, como se defende hoje na apologética católica popular”. Diversos trabalhos sobre o papado e o catolicismo são produzidos por Lucas Banzoli. Veja aqui, por exemplo, a citação de vários historiadores e teólogos católicos que reconhecem que não havia papado na Igreja antiga..
  • [4] CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro séculos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999. Nesta versão, produzida pela CPAD, há uma lista dos bispos, citados por Eusébio, página 409-410, na qual me baseei.

6 de maio de 2022

Archimínia de Meirelles Barreto: seu exemplo e legado na história do protestantismo brasileiro

Por Alcides Barbosa de Amorim

Entre as Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, título do livro da Professora Rute Salviano Almeida (Anexo), quero destacar a pessoa e o trabalho de Archimínia de Meirelles Barreto, uma brasileira que muito cooperou para a história e defesa do Cristianismo Protestante em seu/nosso país.

Archimínia

Acesse o Artigo em PDF, através do link abaixo:

Archimínia de Meirelles Barreto

26 de fevereiro de 2022

Irineu de Leão

Irineu de Leão [1]

“Irineu de Leão escreveu toda a sua teologia desde uma perspectiva bíblica e pastoral. Através dele podemos descobrir muito do que foi o pensamento teológico de seus mestres, porque Irineu não trata de inovar, mas de expor a fé que recebeu de Policarpo e de seus outros mestres” [2].

Irineu era natural da Ásia Menor – provavelmente de Esmirna – onde nasceu por volta do ano de 130 e onde foi também discípulo do bispo Policarpo, acerca de cujo martírio falamos em um capítulo anterior. Durante toda sua vida, Irineu foi um admirador fervente de seu mestre Policarpo, e em seus escritos se refere repetidamente aos ensinos de um "ancião" – o presbítero – cujo nome não menciona, mas que parece ser Policarpo. Em todo caso, por razões que desconhecemos, Irineu se transladou a Leão, no que hoje é França. Ali chegou a ser presbítero da igreja, que o enviou a Roma com uma carta para o bispo dessa cidade. Irineu estava em Roma quando houve uma perseguição em Leão e Viena que já discutimos anteriormente. Nessa perseguição, o bispo Fotino [ou Potínio] entregou sua vida como mártir e, portanto, quando Irineu regressou a Leão ficou encarregado da direção espiritual da igreja, que o elegeu para que fosse seu bispo.
Irineu era antes de tudo um pastor. Seu interesse não estava na especulação filosófica, nem em descobrir recônditos secretos, até então desconhecidos, mas em dirigir a sua grei na sã doutrina e na vida correta. Portanto, seus escritos não intentam elevar-se em altos voos especulativos, mas pretendem simplesmente refutar os hereges e instruir os crentes. Ainda que Irineu compusesse outros escritos, são duas as obras dele que seconservam: "A demonstração da fé apostólica" e "A refutação da falsa gnosis", esta última melhor conhecida como "Contra as Heresias". Na primeira destas obras, Irineu está tratando de instruir sua grei sobre alguns pontos da fé cristã. Na segunda refuta aos gnósticos. Em ambas, Irineu se limita a expor a fé que recebeu de seus mestres, sem tratar de adorná-la com especulações de sua própria lavra. Portanto, muito mais do que qualquer dos outros teólogos que estudaremos aqui, Irineu nos mostra qual era a doutrina comum da igreja até os fins do século segundo.

Irineu é antes de mais nada pastor, desse modo ele mesmo concebe a Deus como um pastor. Deus é um ser amante que cria o mundo e a humanidade, não por necessidade nem por erro – como pretendiam os gnósticos – mas por causa de seu próprio desejo de ter uma criação a qual amar e a qual dirigir, como o pastor dirige o seu rebanho ao redil. À luz desta perspectiva, toda a história aparece como o processo mediante o qual o divino pastor vai dirigindo sua criação em direção à consumação final.

A coroa da criação de Deus é a criatura humana. O ser humano foi criado desde o princípio como um ser livre e, portanto, responsável. Essa liberdade é tal, que mediante ela podemos conformar-nos mais e mais à vontade e à natureza divina, e gozar de uma comunhão sempre crescente com nosso criador. Mas, por outra parte, a criatura humana não foi criada desde um princípio em toda sua perfeição. Como pastor que é, Deus colocou o primeiro casal no paraíso, não em um estado de perfeição, mas "como meninos" (ou "como crianças"). O que isto quer dizer é que Deus tinha o propósito de que o ser humano crescesse de tal modo em comunhão com ele que com o tempo chegasse a estar ainda acima dos anjos.

Os anjos são seres superiores a nós somente provisoriamente. Quando se cumprir na humanidade o propósito divino, os seres humanos estarão acima dos anjos, pois gozaremos de uma comunhão com Deus mais estreita que a deles. A função dos anjos é semelhante à do tutor que dirige os primeiros passos de um príncipe. Ainda por um momento o tutor está acima do príncipe, mas com o tempo será subordinado a ele.

Deus criou então a humanidade "como crianças", para que fossem crescendo e se acostumando à comunhão com ele. Além dos anjos, Deus contava com suas duas "mãos" – o Verbo e o Espírito Santo – para dirigir e instruir a humanidade. Guiados por essas mãos, os seres humanos receberão instrução e crescimento, preparando-se cada vez mais para uma comunhão mais e mais íntima com Deus. Isto é o que Irineu chama de "divinização". O propósito último de Deus é fazer-nos cada vez mais semelhantes a ele. Isto não quer dizer que de algum modo nos dissolveremos na divindade, nem que chegaremos a ser iguais a Deus. Ao contrário, Deus se encontra tão acima de nós que por mais que cresçamos em nossa semelhança a Ele, sempre haverá caminho por andar.

Mas um dos anjos, Satanás, sentiu ciúmes do destino tão elevado que Deus reservava à criatura humana e, portanto, tentou e fez pecarem Adão e Eva Como resultado do pecado, a criatura humana foi expulsa do paraíso, e seu crescimento ficou torcido. Portanto, a história tal como se desenvolveu é resultado do pecado.
Mas, se bem que o conteúdo concreto da história da humanidade é resultado do pecado, o fato de que haja história não o é. Deus sempre teve o propósito de que houvesse história. O paraíso não era senão o ponto de partida nos propósitos de Deus para com a humanidade.

O mesmo se pode dizer com respeito à encarnação de Deus em Jesus Cristo. A encarnação não é o resultado do pecado humano. Ao contrário, desde o princípio Deus tinha o propósito de se unir à humanidade como o fez em Jesus Cristo. De fato, o Verbo encarnado foi o modelo que Deus utilizou ao criar o ser humano segundo sua "imagem e semelhança". Adão e Eva foram criados para que, depois de um processo de crescimento e instrução, chegassem a ser como o Verbo que havia de encarnar. Por causa do pecado, o que sucedeu é que a encarnação tomou outro propósito, e veio a ser também remédio contra o pecado e meio para a derrota de Satanás.

Ainda antes da encarnação, e desde o momento do primeiro pecado, Deus esteve dirigindo a humanidade em direção à uma comunhão mais íntima com ele. Por isso é que Deus "maldiz" à serpente e à terra, enquanto só "castiga" ao homem e à mulher. No momento das maldições, Deus continua levando a cabo seus propósitos redentores.

Nesses propósitos, o povo de Israel cumpre um papel importantíssimo, pois é na história do povo escolhido que as mãos de Deus têm continuado a preparar a humanidade para a comunhão com Deus. Portanto, o Antigo Testamento não é a revelação de um Deus estranho à fé cristã, mas é a história de como Deus continuou os seus propósitos redentores mesmo depois do pecado de Adão e Eva.
Por fim, ao chegar o momento adequado, quando a humanidade tivesse recebido a preparação necessária, o Verbo se encarnou em Jesus Cristo. Jesus é o "segundo Adão" porque em sua vida, morte e ressurreição foi criada uma nova humanidade, e em todas suas ações, Jesus foi corrigindo o mal que fora feito no primeiro pecado. Mas, além disso, Jesus derrotou o maligno, e nos fez possível viver uma nova liberdade. Quem está unido a ele mediante o batismo, a fé e a comunhão participa de sua vitória. Jesus Cristo é literalmente a cabeça da igreja, que é seu corpo. O corpo se nutre mediante a adoração – particularmente a eucaristia – e de tal modo está unido à cabeça que já vai recebendo os benefícios da vitória de Cristo. Em sua ressurreição começou a ressurreição final, da qual todos os que formam parte de seu corpo serão participantes.

Quando chegar a consumação final, e o Reino de Deus se estabelecer, isto não vai querer dizer que a tarefa de Deus como pastor terá terminado. Ao contrário, a humanidade redimida continuará crescendo em comunhão com Deus, e o processo de divinização continuará por toda a eternidade, levando-nos sempre mais perto de Deus.

Em resumo, a teologia de Irineu consiste em uma grandiosa e amplíssima visão da história, de tal modo que os propósitos de Deus vão se cumprindo através dela. Nessa história, o ponto central é a encarnação de Jesus Cristo, não simplesmente porque Ele tenha vindo corrigir a carreira torcida da humanidade, mas também e, sobretudo, porque desde o próprio momento da criação Deus já projetava a encarnação como o ponto culminante de sua obra. O propósito de Deus é unir-se ao ser humano, e isto ocorreu em Jesus Cristo de um modo inigualável.

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Quando e como Irineu morreu? González não comenta. Ao que parece ele foi martirizado, provavelmente no ano 202, conforme o vídeo abaixo. Segundo nos informa FERREIRA: “A notícia de que ele sofreu martírio surgiu, pela primeira vez, nas obras de Jerônimo e Gregório de Tours, provavelmente na época em que, após a cidade de Lião ter apoiado o usurpador Clódio Albino e seus partidários na sucessão imperial, o vencedor desta, Sétimo Severo, mandou matar muitos moradores da cidade, nessa situação, a morte de Irineu pode muito bem ter passado despercebida”[3].

Veja também o vídeo de Edgar de Oliveira, in:



Notas / Referências bibliográficas:

  • [1] Irineu de Leão, Lião ou Lyon. Imagem meramente ilustrativa, disponível em: GONZÁLEZ, Justo L. A Era dos mártires. Op. Cit., Nota 2, p. 111.
  • [2] GONZÁLEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo: a era dos mártires – Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1995, pp. 110 a 115.
  • [3] FERREIRA, Franklin. Servos de Deus: espiritualidade e teologia na história da igreja. São José dos Campos/SP. Fiel, 2014. p. 42.