Por: Alcides Amorim
A relação
entre a fé cristã e a esfera política frequentemente oscila entre o isolamento
alienado e o ativismo ideológico, mas uma análise bíblica e histórica revela um
caminho de engajamento consciente e responsável. Ao contrário do que defende
uma visão dualista radical [1],
a política não deve ser classificada como uma atividade intrinsecamente
diabólica, no sentido de ser ela uma esfera de corrupção inevitável, mentira e
dominação, ligadas às forças do mal ou à matéria inferior. Embora o pecado
corrompa as estruturas de poder e o mundo jazigo no maligno (1Jo 5.19), a
autoridade civil e a busca pela justiça social são esferas instituídas por Deus
para a preservação da ordem e a contenção do mal na Criação. Portanto, a
política é uma atividade terrena legítima, corrompida apenas pela má conduta
humana. Como o “coração do homem é enganoso” (Jr 17.9), a prática política
demanda valores éticos para a sua redenção.
Diante do cenário político de seu país ou
região, a posição do cristão deve ser a de um cidadão exemplar, pautado pelo
discernimento e pelo serviço ao próximo. O fiel é chamado a interceder pelas
autoridades (1Tm 2.2), fiscalizar os governantes e exercer seus direitos
cívicos – como o voto – com base nos princípios bíblicos da justiça, da verdade
e da dignidade humana. Essa postura ativa encontra perfeito eco nas trajetórias
de grandes personagens bíblicos que ocuparam altos cargos públicos em impérios
pagãos. Por exemplo:
· José governou o Egito
salvando nações da fome: "E de todas as terras vinham ao Egito, para
comprar de José; porquanto a fome prevalecia em todas as terras" (Gn
41.57).;
· Daniel atuou na corte
babilônica e não se contaminou. Veja este texto: “Então os presidentes e os
príncipes procuravam achar ocasião contra Daniel a respeito do reino; mas não
podiam achar ocasião nem culpa alguma; porque ele era fiel, e não se achava
nele nenhum erro nem culpa" (Dn 6.4).
· Neemias trabalhou na corte
persa com integridade inabalável. Ele chegou a dizer: "... desde o dia
em que fui nomeado seu governador [de Artaxerxes I] na terra de Judá...
nem eu nem meus irmãos comemos o pão devido ao governador" (Ne 5.14).
No Novo Testamento, Nicodemos
e José de Arimateia (João 19.38-40) que também eram
políticos, usaram suas influências no Sinédrio judeu para apoiar o ministério e
o sepultamento de Jesus. Todos eles demonstram que é possível exercer a
atividade política de seus dias com fidelidade a Deus, transformando seus
ambientes de poder em locais de testemunho e preservação da vida.
Essa atuação terrena, contudo, não anula a
realidade espiritual de que a pátria definitiva do cristão está nos céus. O
princípio bíblico de que “nossa cidade está nos céus” (Fp 3.20) deve ser
entendido não como um convite à passividade ou ao abandono do mundo, mas sim
como uma definição de prioridades e de identidade. O cristão atua como sal da
terra (Mt 5.13) sabendo que nenhum partido,
ideologia ou sistema de governo humano é perfeito ou capaz de trazer a salvação
plena. A cidadania celestial – como já mencionamos neste
artigo [2] – serve como uma bússola
moral: ela impede que o crente idolatre o Estado ou se curve a agendas
corrompidas, funcionando como um farol crítico que avalia a política terrena à
luz dos valores eternos do Reino de Deus.
A história da igreja
confirma a viabilidade e a necessidade desse equilíbrio por meio de diversos
políticos cristãos que marcaram a humanidade.
· William Wilberforce (1759-1833),
convertido ao anglicanismo em 1785, no Reino Unido, dedicou sua carreira
parlamentar à abolição da escravidão, movido por uma profunda convicção
evangélica de igualdade humana.
· Abraham Lincoln (1809-1865), nos Estados Unidos, embora tenha mantido um perfil religioso reservado, sem nenhuma afiliação confessional formal, liderou o país em tempos de guerra civil fundamentando seus discursos na soberania e na justiça divina.
· Martin Luther King
Jr. (1929-1968), como pastor e líder político dos direitos civis, usou
os preceitos do Evangelho para combater a segregação racial de forma pacífica.
Assim, o cristão na política cumpre o seu papel quando compreende que sua
missão terrena é uma extensão de sua fidelidade celestial, agindo como sal e
luz nas estruturas sociais.
Cabe, então, uma reflexão sobre nossa
participação como cristãos e cidadãos brasileiros em ano eleitoral.
No cenário
brasileiro contemporâneo, especialmente no período que antecede as eleições, a
cosmovisão cristã enfrenta o seu teste mais prático e urgente. O eleitorado do país
– majoritariamente composto por católicos e evangélicos [3] – encontra-se no centro de uma disputa narrativa feroz. Partidos e candidatos
de diferentes espectros políticos tentam, frequentemente,
instrumentalizar a fé e os símbolos religiosos para angariar votos,
transformando púlpitos e altares em palcos de debates partidários. Diante desse
bombardeio de informações, o cristão brasileiro é desafiado a romper com a
polarização cega que tenta dividir a nação apenas entre "santos e
demônios", esquecendo-se de que a linha que separa o bem do mal corta o
coração de todo ser humano, e não as legendas partidárias.
A polarização ideológica funciona como uma
armadilha espiritual e intelectual. Ela cega o indivíduo, fazendo-o defender
erros graves de seu candidato de preferência simplesmente por medo ou aversão
ao espectro oposto. Para o cristão com convicções conservadoras, o voto
não pode ser um ato de idolatria política, tampouco uma reação pautada pelo
ódio ou pelo medo generalizado. O voto consciente, sob a ótica do Reino de
Deus, exige um profundo discernimento ético. Significa entender que nenhum
partido político humano encarna perfeitamente o Evangelho de Cristo. Portanto,
a escolha de um representante deve ser baseada em uma análise criteriosa de seu
histórico, de seu caráter individual, de sua honestidade e de seu compromisso
real com a justiça e a verdade, e não apenas em discursos inflamados que usam o
nome de Deus em vão para inflamar multidões.
Exercer o voto consciente no Brasil de hoje é
compreender que, embora nossa pátria definitiva esteja nos céus, o nosso
endereço temporário é aqui. Isso nos impõe a responsabilidade de buscar o bem
da nossa comunidade por meio das ferramentas democráticas disponíveis. Quando o
cristão entra na cabine de votação livre das amarras do extremismo ideológico,
ele recupera a sua liberdade de ser uma voz profética. Ele se recusa a se
curvar a agendas corrompidas, venham de onde vierem, e assume o papel de pacificador
em uma sociedade fraturada. As urnas passarão e os governos mudarão, mas o
compromisso do cristão com a verdade de Cristo e com o amor ao próximo deve
permanecer inabalável, servindo de luz e equilíbrio em tempos de profunda
divisão nacional.
Veja também:
·
A
democracia é uma forma cristã de governo?
·
As
Duas Cidades: Igreja, Estado e a Ética Cristã na Vida Pública.
·
Fé, cultura e razão... à venda no Clube de Autores.
·
Nossa
cidadania está nos céus.
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Notas:
- [1] A visão dualista radical, ou dualismo de substância, afirma que a mente (ou alma) e o corpo (ou matéria) formam duas partes totalmente separadas e diferentes. A mente pensa, mas não tem peso ou tamanho físico. O corpo é físico, mas não pensa.
- [2] GOT Questions. Nossa cidadania está nos céus. In: https://www.blogdoamorim.com.br/2026/06/nossa-cidadania-esta-nos-ceus.html. Acesso em: 29/08/2026.
- [3] Destaquei no meu livro Fé, cultura e razão: fundamentos éticos da cosmovisão protestante (Cap. 4, pág. 107): “Conforme dados do I.B.G.E. (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), atualizados em 2025, mas com cálculos apurados de 2022, no Brasil há aproximadamente 56,7% de católicos ou um total de cerca de 100,2 milhões, e de protestantes (evangélicos) ou 26,9% ou cerca de 47,4 milhões, sem considerar outros grupos de cristãos”.